Um feliz Dia das Crianças àqueles que já cresceram


Rebeca Bedone, Revista Bula

"Abri o maleiro do meu guarda-roupa e da minha memória para reviver as recordações de uma tenra idade. Minha infância ocorreu nos anos oitenta. Revisitar o passado, abrindo caixas de papelão e sonhos guardados, levou-me a uma incrível viagem através do tempo, onde puder voar novamente num Balão Mágico para um mundo bem mais divertido e super fantástico.

A jornada se iniciou pelo meu primeiro diário, que ganhei da minha madrinha de batismo quando tinha 7 anos: assistia o Xou da Xuxa, cortava os cabelos das bonecas Barbie, trocava papel de carta com as amigas e assistia o futebol de botão do meu pai com meus irmãos. Jogava Banco Imobiliário, Cara a Cara e Jogo da Vida. Pulava com Pogobol e queria ser a Cheetara dos Thundercats.

E quando relemos nossas lembranças, aquelas que estavam esquecidas são acordadas e retornam vivas com seus sabores, cores e saudades. Como o Chocolate Surpresa da Nestlé que vinha com figuras de animais da selva e dinossauros. E os pirulitos Dip n’Lik e do Zorro, esse último grudava nos dentes e tinha gosto de caramelo com coco. E as balas Soft coloridas, os Chicletes Mini e os Cigarrinhos de Chocolate da Pan.

Nossas brincadeiras eram de bola de gude, queimada, batata quente, pular elástico e jogar pião. E quem não se lembra de “pera, uva, maçã ou salada mista”? Eu tinha medo de cair na salada mista e minha mãe ficar sabendo. Tínhamos Atari, Genius, Ferrorama e Autorama da Estrela, Gravador Meu Primeiro Gradiente e Pense Bem e éramos felizes com essa tecnologia.

Busquei alguns dos desenhos animados como Caverna do Dragão, Tartarugas Ninja, Meu Querido Pônei, He-Man, She-Ra, Popeye, Speed Racer, Os Smurfs e Os Flintstones e lembrei que naquela época ficava imaginando se hoje viveríamos como Os Jetsons.

Assistia o seriado do Incrível Huck com meu irmão e falávamos para o nosso irmão mais novo de cerca de 4 anos que o mostro verde sairia da televisão para pegá-lo, só para vê-lo sair correndo que nem um foguete para o quarto. Chego até a ouvir aquele tema melancólico no piano ao final, “The Lonely Man”, e sinto saudade dos meus irmãos todos pequenos.

Encontrei “Marcelo, Marmelo, Martelo e Outras Histórias”, de Ruth Rocha. Eu adorava os porquês do Marcelo e teve uma época, que não durou muito tempo para a sorte dos meus pais, que também resolvi colocar nomes nas coisas. Minha nossa, as cartas do autor de livros infantojuvenis Pedro Bandeira! Eu li para a escola “O Dinossauro Que Fazia Au-au” e, no final do livro, vi que podíamos escrever para o autor. Eu gostei tanto do Isauro, o dinossauro, que escrevi uma carta ao escritor e pedi para minha mãe colocá-la no correio.

Da caixa dos livros e cadernos do colégio passei para a caixa dos discos de vinil e fitas K7. LPs coloridos com músicas de cantigas de roda, Pirlimpimpim, Clube da Criança, Fofão, Os Trapalhões, Sítio do Picapau Amarelo e Xuxa trouxeram de volta as fantasias infantis que eram tocadas em uma vitrolinha vermelha. Entrei no YouTube para ouvir Ursinho Pimpão e dancei a minha emoção pelo salão da minha memória com a voz inocente da Simony.

Ao som de “The Goonies ‘R’Good Enough”, de Cyndi Lauper, saí correndo em patins de quatro rodas pelos corredores da minha infância, escorreguei sobre pedaços de papelão em um morro coberto de grama, subi em jabuticabeiras, pesquei lambaris com vara de bambu e ralei meus joelhos nas quedas de bicicleta em que a gente não usava capacete ou qualquer outro tipo de proteção. Voltei ao meio da rua onde jogava bete — o jogo de Taco ou bets — com meus primos e não nos importávamos com os carros que passavam. Vivíamos soltos por aí e não tinha perigo.

Ao fim da minha viagem nesse Trem da Alegria que pede passagem para um mundo de magia, encontrei uma criança que mantém seu coração sonhando acordado. Eu só conheci o escritor Manoel de Barros quando adulta, mas ele já falava o que eu queria ser quando crescesse: “Quando eu crescer eu vou ficar criança”.

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