Azul é a cor mais quente (2013), de Abdellatif Kechiche: nasce uma atriz brilhante


O personagem de Adèle é de uma geração em que escolher a identidade do sexo é, cada vez mais, uma questão natural: este é um ponto central do filme.

Léa Maria Aarão Reis, Carta Maior

Um filme de formação que narra a trajetória de uma adolescente passando à idade adulta e dura três horas. Com uma mega sequência de dez minutos absolutamente extraordinária em sua beleza na qual duas atrizes jovens e lindas transam apaixonadamente à luz de velas fazendo as amantes protagonistas da história, incansáveis, com direito a gritos, palmadas, êxtases e muita transpiração. Uma Palma de Ouro em Cannes concedida pela unanimidade do júri e entregue por Steve Spielberg com elogios rasgados ao diretor e a essas duas atrizes, coisa raríssima: a única mulher a receber o premio, no passado, foi a neozelandesa Jane Campion (de O piano).  E um cineasta nascido na Tunísia, cidadão francês, filho de operário na construção civil, que vive com a família em Belleville, bairro popular multiétnico de Paris, a mulher, a atriz Ghalia Lacroix e sua co-roteirista, e dois filhos gêmeos.

Mais: um tiroteio de lamúrias, queixas, acusações e insultos logo após os beijos e abraços no palco do palmarès, na Croisette, trocados entre uma das duas jovens atrizes, Lea Seydoux - herdeira da família proprietária da Pathé, a legendária empresa de cinema francês, e membro do clã milionário dos Schlumberger, da indústria do petróleo - e Kechiche, o diretor do filme.

Como cerejas do bolo de escândalos, os protestos de militantes femininas gays contra a produção inspirada vagamente na graphic novel francesa de Julie Maroh, mais doce e menos “crua” que o filme – dizem. E o voyeurismo que Azul suscita entre solitários e não-solitários e as velhas e sempiternas manifestações em nome de uma moral repressiva que, ainda bem, já morreu há muito tempo – mas que eles não percebem.

Abdellatif Kechiche é mais conhecido dos cinéfilos do que das grandes plateias. Seu filme não necessita de ingredientes explosivos fora da tela para se manter nas manchetes, desde maio, ao ganhar o premio máximo de Cannes até agora, quando chega ao Brasil.

Azul é a cor mais quente é belíssimo. Kechiche fez uma das mais pungentes histórias de amor mostradas pelo cinema sem concessão a qualquer tipo de romantismo, barato ou não.

Apesar da duração que poderia ser excessiva (mas não é) tem uma narrativa fluente e quase impecável. Praticamente dividido em capítulos (tanto que no título original há o adendo chapître un et deux) o mais surpreendente nele é o lançamento, em grande estilo, de uma menina de 19 anos, francesa de origem grega com o nome de Adèle Exarchopoulos – parisiense filha de pai professor de violão e mãe enfermeira - sobre quem ainda vai-se ouvir falar muito como uma das mais brilhantes atrizes do cinema, caso consiga encaminhar a carreira com rigor.

Sem diminuir o talento de Kechiche, a garota carrega três horas de filme com uma atuação madura, repleta de nuances, de semitons experientes, com os sentimentos sinceros de perplexidade próprios de alguém de sua idade (a personagem é uma estudante propositadamente chamada Adèle por Abdellatiff) que se encontra em dúvida sobre o prazer emocional, existencial e sexual que pode usufruir melhor na companhia de meninos ou com as meninas. Adèle/personagem vem de uma geração em que escolher a identidade do sexo é, cada vez mais, uma questão natural: este é um ponto central do filme.

Apaixona-se quando conhece Emma (Lea Seydoux), moça mais velha, de cabelos pintados de azul, uma artista plástica em início de carreira.
O tema é este: a história do primeiro amor – um amor radical - de uma menina inteligente e sensível buscando estar à vontade na sua opção sexual.

 Como pano de fundo, mas periférico, não essencial, a discriminação agressiva das colegas de escola mobilizadas pelas escolhas de Adèle. O assédio natural dos meninos. As famílias das duas namoradas, cada qual conhecendo a parceira da filha – em duas sequências memoráveis, sutis e simbólicas. Uma, a família de artistas e de intelectuais libertários. A outra, de pequenos burgueses não menos afetuosos e receptivos, porém simples e preocupados com o futuro e com a segurança do emprego.

Os demais capítulos mostram o começo da vida do casal – Adèle e Emma vão viver juntas -; o entusiasmo da paixão com o sexo que será consumido entre as duas; a acomodação; as diferenças naturais nas expectativas de cada uma; a traição pelo esgotamento de sentimentos e de sexo; e, por fim, o drama da separação. Em um epílogo com sequências exemplares (o reencontro, anos depois, das duas moças num café, é inesquecível; Adèle ainda apaixonada por Emma e Emma já vivendo um novo caso) e a menina, agora adulta, no vernissage da ex-parceira.

Em ambas sequências, Adèle/atriz, dá um show.

Incluir a atriz Lea Seydoux na Palma deste ano sugere mais uma ideia de delicadeza do júri em incluí-la no palmarès do que de mérito pelos recursos dramáticos. Embora se saia muito bem com a sua Emma, um personagem forte e complexo - a moça dos cabelos azuis – ela, aqui, é uma atriz degrau para o espetáculo de eficiência dramática da menina Exarchopoulos.

No fim das contas, fora da tela, Lea também não está se saindo tão bem quanto Adèle, que acompanha Kechiche na turnê de lançamento do filme por dezenas de países - ocidentais, é claro. (Nos países árabes, Abdellatiff diz não se preocupar com a censura: “Os meninos vão baixar o filme de qualquer modo.”)

Lea se queixa de ter sido tratada como “prostituta” pelo diretor e de as filmagens de La vie d’Adéle terem sido motivo de grande “sofrimento”. Declarações feitas depois dos carinhos de palco, no Grand Palais de Cannes.
Despeito por não ser agraciada com a mesma enxurrada de elogios à sua companheira?

Mas o diretor da herdeira Seydoux não deixa por menos e responde, alimentando o bate-boca, em uma entrevista ao The Guardian: “Quando se trata de atuar eu acho a palavra ‘sofrimento’ indecente. Atores não ganham o mesmo que trabalhadores braçais, por exemplo. Costumam ser o centro das atenções, voam em primeira classe, hospedam-se em hotéis cinco estrelas que são construídos por operários; e são servidos por empregados que limpam o que sujam em seus apartamentos. Seu trabalho é bem agradável porque atuar, representar, é como um jogo e enriquece o indivíduo. Muito diferente do trabalhador que volta para casa exausto, todos os dias, só pensa em comer espaguete e em cair na cama para dormir.” (Em dois momentos de Azul é a cor mais quente o espaguete aparece, insistente, como definição gastronômica de luta de classes.)

Por mais dolorosos que seja fazê-los, os filmes de Kechiche crepitam, como observam os ingleses, de energia e exuberância. Vênus Negra, O segredo do grão, A esquiva, A culpa de Voltaire são seus trabalhos anteriores. Todos, reflexões sobre a classe operária.”

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