96 milhões de brasileiros ainda não tem cinema perto de casa, diz relatório da Ancine; Marta Suplicy aponta CEUs como solução

Apenas 392 dos 5570 municípios brasileiros contam hoje com uma sala de cinema com essa, do Rio Grande do Sul (Foto: Secret. Cultura/RS)
Rodrigo Rodrigues, Terra Magazine

No momento que o Brasil discute as vantagens do Vale Cultura para o fomento às produções culturais, dados do Relatório Anual do Mercado Cinematográfico Brasileiro, publicado pela Ancine (Agência Nacional de Cinema), mostram uma realidade estarrecedora no País: pelo menos 96,8 milhões de brasileiros não tem um cinema perto de casa.
Embora o número de salas e de público tenha crescido consideravelmente na última década, apenas 392 dos 5570 municípios brasileiros contam com uma sala de cinema, de acordo com o documento. 
O número significa que apenas 7% das cidades do país são contempladas com algum espaço para exibição de filmes.
O que mais espanta é que desde 2011 os números de cidades contempladas com cinema permanecem praticamente estáveis. Naquele ano, 392 cidades tinham alguma sala de cinema. Em 2012 esse número caiu para 391 e em 2013 voltou para os mesmos 392 anteriores.
No mesmo período, contudo, o número de complexos de cinema saltou de 662 em 2011 para 721 complexos em 2013. 
O mesmo vale para o número de salas, que em 2011 eram 2.352 salas e em 2013 fechou o ano com 2.679, segundo os dados divulgados pela agência.
Soluções e ajuda
De acordo com o cineasta André Sturm, diretor executivo do MIS (Museu da Imagem e do Som) e administrador do Cinema Belas Artes, que deve retornar ao circuito paulistano até o mês de maio, o problema reside na falta de interesse público e privado no fomento a novas salas de cinema.
“Os grandes empresários tratam o cinema apenas como um investimento e querem ter retorno em qualquer aplicação que fazem. Eles se concentram nos grandes centros porque o retorno é certo e mais seguro. Por isso, o governo tem que incentivar e ajudar os empresários médios e independentes que querem abrir um espaço menor nas cidades fora dos grande eixos”, analisa o cineasta. 
Sturm afirma que nos últimos anos o governo federal começou a dar isenção na compra e modernização de projetores, luzes e outros equipamentos técnicos para a projeção cinematográfica, numa política que, segundo ele, tem sido “bem sucedida”.
Apesar disso, o cineasta acha que é preciso ir além e afirma que o Poder Público precisa colaborar na manutenção dos espaços criados. 
“Manter um cinema é muito caro. 50% de tudo que é arrecadado na bilheteria vai só para o pagamento de aluguel do prédio, no caso do Belas Artes, por exemplo. Se o Poder Público não abraçar esses espaços como investimento cultural pras pequenas cidades, qualquer um que abrir vai fechar. Por isso ninguém se arrisca”, decreta Sturm. 
Média nacional
Apesar dos números da falta de acesso do brasileiro ao cinema ainda serem assustadores, o relatório da Ancine mostra alguns dados bem positivos em relação ao acesso. Enquanto em 2009 o número de salas de cinema no Brasil era de 91.727 habitantes por sala, em 2013 esse número caiu para 75.040 habitantes por sala. 
O avanço é grande, mas ainda está longe da média da Argentina, por exemplo, que tem 51 mil habitantes por sala de cinema. O México tem aproximadamente 21 mil hab/sala e a França, que em 2012 mantinha a média de 11mil habitantes por sala. 
O relatório também aponta que o número de expectadores das produções nacional atingiu o novo recorde de 28,7 milhões nas salas de cinema de todo o Brasil em 2013. A renda gerada pelo cinema brasileiro chegou a R$296 milhões.
Para enfrentar o problema da falta a de acesso aos cinemas no País, porém, a ministra da Cultura, Marta Suplicy, lançou um edital de apoio aos circos brasileiros. O chamado "Projeto Carequinha" é uma linha de financiamento de R$10 milhões que contemplará projetos circenses que, segundo a ministra, podem ajudar a diminuir o problema da falta de equipamentos culturais nas cidades pequenas. 
“A ideia de dar força para o circo é porque ele entra nas cidades com menos de 20 mil habitantes, que não tem cinema e muitas vezes não tem nem livraria. Além do espetáculo circense, a proposta é que eles ampliem a oferta para teatro e cinema, e também possam ficar mais tempo numa mesma cidade. O projeto implica na possibilidade deles comprarem todos os apetrechos que precisam para oferecer isso, como projetores, lonas e tudo mais que é necessário”, explica Marta Suplicy.

A ministra da Cultura, Marta Suplicy, admite a deficiência do Brasil no acesso à Cultura, mas diz que programas como os 'CEUs das Artes' podem ajudar na solução do problema (foto: Agência Brasil)
A ministra da Cultura admite que o incentivo ao circo não é a única solução para reverter o problema. Ela acredita, contudo, que a inauguração dos chamados “CEUS das Artes” (Centros de Artes e Esportes Unificados) a deficiência do acesso à Cultura no Brasil possa ser combatida numa outra frente. 
 “Esse problema de inclusão não acontece apenas com cinema, mas com teatros e museus por exemplo. Uma pesquisa recente que o mMinistério fez mostrou que 94% dos brasileiros nunca foram a um museu e sequer sabem que existe um dia na semana que o museu é gratuito”, conta a ministra Marta Suplicy, que participou na última sexta-feira (17) em São Paulo da entrega de cartões do Vale Cultura para empregados do Banco do Brasil. “Nós estamos tentando enfrentar isso dando mais força para a inclusão social dentro do Ministério da Cultura. Os CEUS das Artes, quando começarem a funcionar, vão dar uma possibilidade boa como equipamento cultural e de formação artística”, comenta. 
CÉUs
Bandeira antiga de Marta desde os tempos em que ela era prefeita de São Paulo (2001-2004), os chamados “CEUs das Artes” são centros de cultura e lazer integrados num mesmo espaço físico, onde são oferecidos programas e ações culturais, práticas esportivas e de lazer, formação e qualificação para o mercado de trabalho.
A promessa do governo federal é construir pelo menos 325 prédios como esses ao redor do País, em terrenos que devem variar de 700 a 7.000 m². Esses prédios seguem o modelo do já implantado pela ex-prefeita em São Paulo. 
Dez unidades já foram entregues pelo governo federal no País até agora, cada um ao custo médio aproximado de R$2 milhões em verbas do PAC 2 (Plano de Aceleração do Crescimento).
No último balanço do PAC, a Casa Civil informou que 76% das unidades contratadas pelo governo já estavam em obras ou em fase de conclusão. O investimento total do governo neste projeto soma R$795 milhões, segundo a própria administração federal.
“Aos poucos tá indo. Até no Xingu foi entregue um CEUs para os índios”, comemora Marta Suplicy.
Dados do relatório anual da Ancine mostram a evolução das salas de cinema no país desde 2009 até 2013 (Fonte: Reprodução)

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