“O mordomo da Casa Branca” e “12 Anos de Escravidão” ajudam a entender o ódio racial nos EUA

, Diário do Centro do Mundo

“O Mordomo da Casa Branca” e “12 Anos de Escravidão” estão entre as maiores bilheterias do cinema hoje. Ambos tratam da história dos negros nos Estados Unidos. Ambientados em épocas diferentes, são complementares, os dois baseados em autobiografias.

É um filão lucrativo –  aberto, curiosamente, por um cineasta branco, descendente de italianos. “Django Livre”, de Quentin Tarantino, fez mais de 400 milhões de dólares no mundo. Embora os diretores sejam negros, não escaparam da patrulha. Steve McQueen, de “12 Anos…”, foi acusado por feministas de não retratar nenhuma mulher com personalidade forte (não é verdade). Seu colega Lee Daniels foi chamado de Uncle Tom, o apelido pejorativo para o afro-americano submisso. Besteira.

“O Mordomo…” (disponível no Netflix) fala de um autêntico Uncle Tom. Cecil Gaines (Forrest Whitaker, como sempre impecável) recorda sua trajetória enquanto espera no hall da Casa Branca para visitar Obama em 2009.

Cecil cresceu numa plantação de algodão na Georgia. Vê sua mãe ser estuprada pelo filho da dona da fazenda e seu pai ser morto ao confrontar o assassino. É adotado pela fazendeira, que lhe ensina a pôr a mesa, receber convidados etc. Aprende a lição de que “servir bem é servir sempre”.

Acaba contratado como mordomo da Casa Branca, onde fica durante 30 anos.

Enquanto ele sobrevive invisível ali, seu filho, Louis, vira um ativista e sua mulher (interpretada por Oprah Winfrey) sucumbe ao alcoolismo e aos favores sexuais de um vizinho bonitão.

A fita traz um panorama da luta dos direitos civis e os presidentes que atuaram para mitigar o racismo na sociedade americana. Daniels conseguiu reunir um elenco de atores engajados fazendo pontas. De Vanessa Redgrave a Robin Williams (como Eisenhower, com uma maquiagem ridícula), passando por Mariah Carey (que, graças a Deus, não canta) e Jane Fonda, é um “quem é quem” da chamada “esquerda” de Hollywood.

O resultado tem um certo ar de novela. Mas é competente. Emociona, especialmente nos momentos em mescla o cinema com cenas reais dos conflitos no fim dos anos 50 e ao longo dos 60. Você se lembra de que, até ontem, o Alabama tinha segregação e gente estúpida se vestia com a fantasia da Ku Klux Klan. Os estúpidos continuam lá, mas sem a roupa de fantasma. Através das brigas de seu filho e com seu filho, Cecil descobre que o mundo em que ele respira talvez não seja dele.

O tom de “12 Anos de Escravidão” é mais contundente. McQueen queria abordar a escravidão, mas de uma maneira original. Adaptou o livro de memórias de Solomon Northup. Com uma vida e uma carreira em Nova York, Northup é sequestrado em 1841 e vendido para uma propriedade na Louisiana.

Chiwetel Ejiofor tem um desempenho extraordinário como o estóico Northup.
 De violinista estabelecido em sua cidade, livre, pai de família, vai parar no coração do Sul escravocrata, com seus capangas vingativos, linchamentos, senhores sádicos e senhoras que colocavam escravos para dançar e tocar à noite, como poodles de circo, para se divertir.

Passa longe da fanfarronice de Tarantino em “Django”. É um épico denso. Emily West, professora de história dos EUA especializada nesse período, declarou que é o filme mais acurado sobre o assunto. “Ele revela as visões e o som desse tempo — de escravos colhendo algodão enquanto cantam até o barulho dos chicotes rachando suas costas”.

Os dois longas ajudam a explicar por que o ódio racial ainda é tão presente nos Estados Unidos, suscita algumas perguntas sobre o Brasil (uma delas é: por que não temos um bom filme sobre a escravidão aqui? “Xica da Silva” não vale) e leva a uma conclusão: Obama não é, essencialmente, tão diferente do mordomo da Casa Branca.

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