Pequeno grande traço

Visual econômico, fragilidade e grandeza
"Luiz Bolognesi dá um tom épico ao desenho "O Menino e o Mundo", seu contraponto infantil ao projeto "Uma História de Amor e Fúria", mais uma tentativa de busca pessoal e análise da sociedade 

Orlando Margarido,CartaCapital


O Menino e o Mundo

Alê Abreu

Um tanto do desafio e do contexto ambicioso em que se encontra a animação brasileira tem recente representação em vertente adulta no elaborado projeto de Luiz Bolognesi, Uma História de Amor e Fúria, e agora com O Menino e o Mundo, seu contraponto infantil. Isso porque o tom épico orienta ambos os desenhos dedicados também a uma busca pessoal e a uma análise de sociedade. O longa-metragem do talentoso Alê Abreu (Garoto Cósmico), estreia da sexta 17, toma do conceito evidentemente sem perder o foco do público a que se destina, mas com material crítico e histórico que conquistará também os pais. Faz isso com muita graça e colorido, em especial se valendo de um traço simples de lápis adotado por quem tenha desenhado na infância.

Esse modelo resume-se no próprio menino do título. Uma cabeça de bolota fincada em duas pernas palitos, assim como seus braços, camiseta listrada e bermuda. A economia do visual permite vários dos recursos, alguns realistas e outros da fantasia própria da linguagem, utilizados na viagem solitária do personagem em busca do pai. Mais elaborada será a ambientação em torno, da região erma e pobre de um Nordeste brasileiro à cidade apinhada e encaixotada em barracos de um Sul que se julga próspero. Cabem nesse confronto medido pelo garoto as mensagens sociais que em nenhum momento se sobrepõem à jornada ou quebram o encanto. Talvez o jogo mais bem-sucedido dessa bela animação, com luxuosa trilha musical de Naná Vasconcelos e Emicida, seja justamente o de opor uma aparente fragilidade do protagonista ao mundo que lhe surge grandioso, mas também cheio de pequenez."

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