‘O Abutre’ é mais que um filme sobre o jornalismo moderno


, DCM

'Antes de tudo, vá assistir ‘O Abutre’ (Nightcrawler, no original). É uma pérola, uma preciosidade e, provavelmente, por ser um lançamento menor numa época de arrasa-quarteirões de fim de ano e candidatos aos prêmios da temporada, corre o risco de ficar em cartaz por pouco tempo e passar quase despercebido.

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O título, possivelmente sem intenção direta, remete ao clássico de Billy Wilder, ‘A Montanha dos Sete Abutres’ (Ace in the Hole, no original), com Kirk Douglas no papel de um jornalista que explora ao máximo – com consequências trágicas – a história de um homem preso em uma mina.

De fato, não é de hoje que o jornalista – em especial o sensacionalista – carrega consigo a analogia de um abutre em busca de carniça. ‘Se tem sangue, é notícia’, diz aqui o personagem de Bill Paxton, um veterano cinegrafista. A editora Nina (Rene Russo), em outro momento, descreve:

‘Imagine o nosso jornal como uma mulher aos gritos, com a garganta cortada, correndo pela rua’.

‘O Abutre’ segue Louis Bloom (Jake Gyllenhaal), um determinado jovem que vive sozinho em Los Angeles e não mede esforços na busca por um trabalho. Inicialmente um ladrão, ele acaba se lançando como cinegrafista freelancer atrás dos furos de reportagens sangrentos da madrugada.

Numa primeira leitura este pode parecer um filme sobre jornalismo moderno, mídia e os limites na busca pela notícia e a audiência. Mas acredito fortemente que há um conteúdo muito mais complexo e profundo do que o apresentado em primeiro plano por Dan Gilroy (roteirista já cinquentão, estreando aqui na direção em grande forma). Penso que este é um retrato quase satírico sobre ambição corporativa, o sonho americano, e no grande espectro, sobre a pior face do capitalismo.

Louis Bloom tem a determinação e visão que muitos chefes gostariam de ver em seus empregados. E conforme cresce na profissão, seu discurso se parece cada vez mais com um gestor de uma grande empresa. Autodidata, ele aprende rápido e tem na internet sua fonte de conhecimento. É dali que vem toda sua retórica corporativa. ‘Você pode encontrar tudo que quiser se procurar o suficiente’, ele diz.

No decorrer da narrativa, Louis de certa forma se torna um empresário, mergulhando num jogo de oferta e demanda, e transcendendo a discussão ética da sede pela tragédia alheia ao não enxergar problemas em invadir a casa de uma família que acaba de passar por um tiroteio ou até mesmo manipular a cena de um acidente ou de um crime. Tudo pela valorização do seu produto final -com sabotagem da concorrência no caminho. Em alguns anos de jornalismo, guardadas as devidas proporções, posso dizer que vi coisa parecida.

Com os competidores fora do caminho e sua empresa em crescimento, Louis adota estratégias de marketing, elimina o intermediário, valoriza a sua marca. Cria um nome para sua empresa, exige que suas imagens sejam creditadas, que seu nome seja repetido pelos âncoras. Ele sabe o valor do seu produto e aprende a barganhar e maximizar os lucros por isso.

As cenas de entrevista de emprego e negociação de aumento de salário, ambas entre Louis e seu assistente, Rick (Riz Ahmed), poderiam ter saído de um drama corporativo. A impressão crescente é realmente de que esta não é uma narrativa realista, e sim um sinistro e sombrio comentário político e satírico do sonho americano de sucesso financeiro e ascensão social. Um sentimento acentuado pela fotografia de Robert Elswit (parceiro do cineasta Paul Thomas Anderson) que, como apontado pelo crítico Anthony Lane, da The New Yorker (http://www.newyorker.com/magazine/2014/11/03/making-news-2), apresenta uma Los Angeles que tem um quê de David Lynch, “onde a escuridão cai e mesmo os dias parecem sempre noite”.

Minha teoria é corroborada ainda pela música deslocada de James Newton Howard, que de início incomoda por sua dissonância em relação ao tom do filme, mas no decorrer da história se encaixa perfeitamente na proposta cínica de Gilroy; e pela fala do protagonista que fecha o frenético e fantástico clímax, explicando o que já entendemos pela oportunidade de uma última pérola do discurso empresarial. Discordo apenas da necessidade da cena final de interrogatório. Acho que o filme poderia ter se encerrado minutos antes de forma mais concisa e eficiente.

Toda a estrutura afiada de ‘O Abutre’, no entanto, não funcionaria sem um bom ator no papel central. E Jake Gyllenhaal merece todos os aplausos aqui. Admiro atores que tomam caminhos inesperados e tem sido interessante acompanhar os últimos passos de Gyllenhaal. Depois de construir desde jovem uma carreira equilibrada entre projetos maiores e filmes independentes, de uns anos pra cá Gyllenhaal alterna passagens pelo teatro com ótimos trabalhos no cinema americano, se colocando a serviço de jovens e novos diretores e associando-se a um dos mais arrojados realizadores da atualidade, o canadense Denis Villeneuve, responsável pela obra-prima ‘Incêndios’ e com quem Gyllenhaal filmou ‘Os Suspeitos’ e o sensacional ‘O Homem Duplicado’, um dos melhores filmes deste ano.

Em ‘O Abutre’, na caracterização física, no olhar, na postura, no tom de voz e no padrão de fala, ele entrega uma atuação que balanceia sociopatia e carisma. Louis Bloom cruza muitas linhas, não tem limites ou escrúpulos que o parem em sua escalada. Mas como o Coringa em ‘O Cavaleiro das Trevas’, não conseguimos desviar o olhar, fascinados que estamos para descobrir até onde ele vai e do que mais é capaz. E isso é mérito de sua performance.

Outro destaque a ser dado é para o ator Riz Ahmed que, no papel do assistente Rick, divide a cena com o protagonista de igual pra igual em todos seus momentos, com muito menos material à sua disposição.

No fim das contas, o sistema engole tudo. Da jornalista cinquentona, já aposentada do vídeo, que faz de tudo para manter-se no pouco mercado que ainda lhe resta, ao jovem sem-teto que precisa de um trabalho, ainda que moralmente condenável e mal remunerado. Louis Bloom, por outro lado, encontra seu lugar. E sua falta de humanidade, assim como seu modo de pensar e agir no decorrer de toda sua jornada não me deixam dúvidas. Está tudo no olhar: ele e o capitalismo foram feitos um para o outro."

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