Por que os russos são sempre vilões em Hollywood?


"De um sádico antigo espião da KGB em Os Vingadores aos personagens malvados de Duro de Matar – Um Bom Dia para Morrer, não faltam vilões russos nas telas ultimamente. Políticos e cineastas da Rússia já deixaram claro seu descontentamento com a maneira como a indústria cinematográfica americana retrata personagens russos como os malvados da trama. Houve até uma ameaça de boicote dos russos aos filmes de Hollywood, trazendo à tona o debate sobre o risco que os estúdios correm quando decidem demonizar uma nacionalidade.

Da BBC Brasil 

Em agosto, a agência de notícias russa Interfax informou que Batu Khasikov, membro da comissão de cultura da Assembleia russa, afirmou que "os filmes nos quais as referências à Rússia fossem negativas ou exibidas de maneira tola deveriam ter sua exibição proibida nos cinemas do país".

Mas mostrar os russos como vilões é algo que vem de longa data. "Mesmo antes da Guerra Fria, a Rússia costumava ser representada como uma ameaça geopolítica ao Ocidente", diz James Chapman, professor de estudos do cinema na Universidade de Leicester, na Grã-Bretanha. "Mas [esse estereótipo] ganhou uma inflexão ideológica ainda mais acentuada durante a Guerra Fria, quando começa a associação não só com a Rússia, mas também com o comunismo soviético".

Surpreendentemente, a queda do Muro de Berlim não acabou com os vilões russos das telas. "As coisas nunca se acalmaram o suficiente para a Rússia começar a sentir que não é um inimigo constante", diz a professora russo-americana Nina Krucheva, bisneta do líder soviético Nikita Kruchov e radicada nos Estados Unidos.

Kenneth Branagh encarnou um inescrupuloso bilionário russo em 'Operação Sombra'
 Acadêmicos veem a postura durona do presidente russo, Vladimir Putin, como o motivo para a presença cada vez maior de vilões russos atualmente. "Principalmente depois da volta de Putin à Presidência, com um regime muito mais linha dura, surgiu essa sensação de que a Rússia continua sendo uma ameaça geopolítica e uma potência hostil, mesmo depois do fim do comunismo", afirma Chapman.

Vilões da vez

Os russos podem ser os vilões da vez, mas nas últimas décadas várias raças e nacionalidades tiveram seu momento de maldade nas telas. Durante a Segunda Guerra Mundial, por motivos óbvios, os antagonistas dos filmes americanos eram alemães ou japoneses.

Outro grupo que vem sendo retratado negativamente há décadas, em vários graus de intensidade, é o dos árabes e muçulmanos. Mesmo antes do sucesso de Rodolfo Valetino em filmes como The Sheik, de 1921, havia uma tendência a se retratar os árabes como malandros que roubavam e assassinavam.
Após os ataques do 11 de Setembro, houve uma grande preocupação entre a comunidade árabe-americana sobre se eles seriam marcados como terroristas no cinema.

A China também teve sua parcela de vilões nas telas desde a época em que Fu Manchu surgiu como um personagem chinês nada confiável, nos primeiros anos do cinema falado. Quando a MGM lançou A Máscara de Fu Manchu, em 1932, a embaixada da China nos Estados Unidos apresentou uma reclamação formal porque o personagem-título era retratado com hostilidade.

De olho no mercado, produtores de 'Amanhecer Violento' trocaram vilões chineses por norte-coreanos
Mas hoje mal se vê chineses malvados nos filmes hollywoodianos, porque a China se tornou um mercado vital para os estúdios.

Isso se tornou claro com o remake de 2012 de Amanhecer Violento. Assim como no original de 1984, o filme foi rodado com vilões chineses, mas por causa de preocupações com a aceitação da produção no mercado do país, os "bad guys" foram transformados em norte-coreanos na pós-produção - não sem um custo considerável.

Novo tipo de maldade

Mas, se a Rússia representa o sétimo maior mercado de cinema do mundo, por que os estúdios se arriscam em antagonizar um de seus clientes mais importantes? Uma possibilidade é que as reclamações dos russos sobre os filmes de Hollywood podem ter um impacto positivo para os estúdios no que se refere à publicidade. "Os produtores gostam do interesse e da atenção", diz James Chapman.

Mas com a insatisfação cada vez maior do público russo correndo o risco de machucar as bilheterias, pode ser que os estúdios reavaliem suas posições.
Com tão poucas nacionalidades para Hollywood demonizar hoje em dia, está claro que os produtores precisam encontrar novos vilões.

O autodenominado "Estado Islâmico" poderia ser uma fonte de personagens cruéis, mas a possibilidade é encarada com cautela porque a organização é composta por pessoas de várias nacionalidades, incluindo dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha.

Com a complexidade da geopolítica atual, é possível também que os vilões deixem de ser definidos primariamente por suas nacionalidades. Para especialistas, uma das tendências será ter como malvados os poluidores e destruidores do meio ambiente. Esse, aliás, foi o tipo de vilão no filme de maior faturamento de todos os tempos, Avatar, de 2009.

O problema é que nenhum dos vilões atuais têm o peso daqueles de outrora. Durante a Guerra Fria, um malvado russo nas telas parecia muito mais ameaçador porque o público sabia que os Estados Unidos e a União Soviética poderiam entrar em guerra de verdade.

Talvez tenhamos que esperar até que Hollywood encontre uma nova inspiração para reinventar o supervilão do cinema."

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