Games: com forte apelo visual, 'Beyond Eyes' lembra livro de histórias infantil


Da Folha de S. Paulo

Jogar "Beyond Eyes", título da produtora independente Tiger & Squid protagonizado por uma garotinha cega chamada Rae, é como ler um livro infantil ilustrado por aquarelas encantadoras, pinceladas conforme seus olhos pulam de uma página a outra.

Demonstrado durante a última edição da feira de games E3, em junho, "Beyond Eyes" chama a atenção não apenas pela temática ou pelo visual, mas pela mecânica que une esses atributos na tentativa de passar ao jogador a sensação de explorar um mundo desprovido de um dos sentidos.


No game, descrito pela criadora Sherida Halatoe como um "conto de fadas moderno", o jogador guia Rae em busca de seu único amigo, um felino que a visitava frequentemente para brincar, mas que desaparece após um inverno. O forte laço de amizade com o gato Nani motiva a garota a deixar o jardim de casa onde se restringia a ficar desde o acidente que lhe tirou a visão.

Assim como Rae, não somos capazes de enxergar o cenário bucólico que a cerca num primeiro momento: quase toda a tela é preenchida por um nada, um branco imponente. À medida que ela caminha –seus passos cuidados ditando um ritmo de jogo lento–, o mundo interpretado por seu olfato, tato e audição nos é revelado, como uma pintura concebida bem à nossa frente.



É um conceito admirável, ainda mais interessante quando atravessamos uma ponte sobre um riacho –a estrutura se formando sob os pés de Rae– ou o pio de um pássaro empoleirado numa árvore faz uma porção do cenário ao longe surgir e sumir, surgir e sumir, no tempo em que o som é emitido.

Esse traço de "Beyond Eyes", no entanto, não passa de um belo recurso visual para ilustrar a narrativa, vez ou outra dando dicas ao jogador perdido de qual caminho seguir. Esperava-se que fosse mais explorado, talvez servindo de solução de quebra-cabeças, ainda que simples. Mas a Tiger & Squid preferiu abrir mão da jogabilidade para focar história e arte.

"Beyond Eyes" é sobre tomar coragem para desbravar o desconhecido, o maior "inimigo" de Rae. Como não nasceu cega, a protagonista tem, guardadas na memória, imagens de muitas coisas, enquanto outras tantas lhe são novas.

Com frequência, o game inteligentemente prega peças em nossa percepção com base no repertório e nas descobertas da garota: o zumbido de um motor de carro vem, na verdade, de um cortador de grama em atividade; um galho de árvore arrastado pelo vento no chão, por exemplo, se revela um guarda-chuva quando nas mãos de Rae. Essas ilusões têm um grande papel no fim do jogo, que pode ser concluído em menos de três horas.

Desenvolvido a partir do projeto de graduação em design de games da criadora Halatoe, em 2011, "Beyond Eyes" foi lançado para Xbox One no começo de agosto e deve chegar a outras plataformas ainda neste ano.

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