Preconceito e intolerância são o mote de 'Pelo Malo'

“Aceitar o cabelo tal e qual ele é significa reconhecer a si mesmo e ao outro”, diz a diretora Mariana Rondón
"Filme venezuelano que conta a história de um garoto negro, cujo sonho é se tornar um cantor de cabelo liso

Xandra Stefanel, RBA

No filme Pelo Malo, dirigido por Mariana Rondón, a rejeição impera do início ao fim. O longa-metragem venezuelano, que estreou ontem (17) no Brasil, conta a história de Junior (Samuel Lange), um garoto negro de nove anos cujo sonho é se tornar um cantor de cabelo liso. Nesta sexta-feira (18), às 20h, no Espaço Itaú Frei Caneca, a exibição de Pelo Malo será seguida de debate com Mariana, a produtora Marité Ugás e o ator Beto Benites. O espaço fica na Rua Frei Caneca, 569, centro de São Paulo.

Ele, sua mãe Marta (Samantha Castillo) e seu irmãozinho moram em um bairro pobre em alguma cidade grande da Venezuela. A trama toda gira em torno da foto que Junior precisa fazer para a escola. Ao ir a um estúdio com sua vizinha, ela diz querer uma foto como Miss Venezuela e a ele, o dono sugere que se vista como soldado: “Na minha foto, serei um cantor de cabelo liso”, rebate o garoto.

Na verdade, como sua mãe cria os dois filhos sozinha e não consegue se manter em nenhum emprego por muito tempo, a situação em casa está bem complicada e Junior ainda não conseguiu o dinheiro para ser fotografado. Enquanto isso, ele segue tentando de todas as formas deixar seu cabelo “bom”.

Junior, ainda tão criança, já percebeu que “o sucesso é branco e tem cabelo liso” e parece não se conformar com sua condição. A mãe, por sua vez, acha o comportamento do filho estranho e o rejeita. Onde já se viu gostar tanto de cantar, dançar e se preocupar tanto com o cabelo? Ela chega até a levá-lo ao médico, preocupada com a possibilidade de ele ser gay. “Ele tem que ter o exemplo de uma figura masculina para que entenda que pode existir uma relação de amor entre um homem e uma mulher”, aconselha o médico.

Quando a mulher não consegue mais deixar o bebê com a babá porque não tem com o quê pagá-la, ela decide levar as crianças na casa da avó (Nelly Ramos), sua ex-sogra, com quem parece nunca ter tido um bom relacionamento. A avó sabe que Junior é diferente e o quer para ela. Marta diz que não, que se ele ficasse, seria morto em pouco tempo. “Não. Ele é diferente, não quer armas. Ele só quer ser bonito e se vestir bem. Por isso você não gosta dele”, diz a avó.

E realmente Marta parece não gostar de Junior. Ela o rejeita com gestos, com olhares, com gritos, enfim, de todas as maneiras. E ele, em sua inocência, só quer ser aceito como filho e, inconscientemente, como sonhador de um futuro melhor, ou pelo menos diferente do que teve seu pai, morto por ter se envolvido com o crime.

É na casa da avó que Junior se sente mais amado: ela lhe alisa o cabelo, ensina-lhe uma música (a versão em espanhol de Meu Limão, Meu Limoeiro) e o incentiva a dançar. Mas quando ele se vê com um terno branco cheio de babados, todos os preconceitos de sua mãe lhe caem sobre os ombros: “Sou um menino e não vou usar um vestido”, grita com a avó e foge.

O filme se passa numa Venezuela pobre e caótica e este foi um dos motivos por Mariana ter sido muito criticada pelos defensores do chavismo (e, consequentemente, elogiada pela oposição). Mas a obra vai além da polarização política daquele país. Ela evidencia como os países hermanos latino-americanos se igualam no preconceito, especialmente no que diz respeito a raça, orientação sexual, ao gênero e condição social.

Pelo Malo, cabelo ruim em tradução livre do espanhol, foi exibido em outubro passado na 37ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Na ocasião, Mariana Rondón declarou que o peso do preconceito, no Brasil como na Venezuela, era o mesmo. “À primeira vista, pode parecer algo pequeno, mas é, na verdade, algo muito importante. A população da Venezuela é uma população mestiça e, como no caso do Brasil, quase todos temos “cabelo ruim”. Apesar de, na origem, essa ser uma expressão pejorativa e racista, com o passar do tempo a carga de violência desse termo foi se perdendo. Hoje, é comum que um adulto, de maneira carinhosa, passe a mão no cabelo de uma criança e diga: 'Ah, que bonitinho, você tem cabelo ruim'. Aceitar o cabelo tal e qual ele é significa reconhecer a si mesmo e ao outro. O peso do olhar do outro pode ser algo muito violento”, afirmou em entrevista ao Jornal da Mostra.



Pelo MaloRoteiro e direção: Mariana Rondón
Produção: Marité Ugas
Direção de fotografia: Micaela Cajahuaringa
Direção de arte: Matías Tikas
Montagem: Marité Ugás
Música: Camilo Froideval
Duração: 93 minutos
Atores:
Samuel Lange
Samantha Castillo
Nelly Ramos
Beto Benites
Maria Emilia Sulbarán
Gabriel Guedez

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