Capitão América negro? Homem Aranha latino? O que está acontecendo no universo dos super heróis

Thor
, Diário do Centro do Mundo 

"Em 15 de julho de 2014, a Marvel Comics anunciou que seu personagem de quadrinhos Thor, um loiro forte e musculoso, deus do Trovão, será transformado em uma amazona, igualmente poderosa, numa tentativa reestruturação profunda do super-herói.

No dia seguinte, anunciaram que o Capitão América será agora um negro e terá asas. Ele é, na verdade, o antigo herói Falcão, que tem pele negra e assumirá o lugar do super-herói que matava nazistas na Segunda Guerra Mundial.

As mudanças da Marvel despertaram protestos dos fãs da editora e também elogios de outros. Não é fácil mudar personagens consagrados na ficção. Mas esse movimento da marca não é de hoje.

A Marvel Comics mostra mulheres-heroínas desde o Quarteto Fantástico, lançado em 1961 por Stan Lee e Jack Kirby com a Mulher Invisível (Susan Storm). A concorrente DC Comics já tinha colocado o feminino nos quadrinhos em 1941, com a Mulher-Maravilha.

A editora tenta abarcar minorias étnicas e sexuais com mais determinação desde agosto de 2011. Naquele mês e naquele ano, a Marvel lançou Miles Morales como o novo Homem-Aranha. Embora viva em Nova York, mesma cidade do aranha original Peter Parker, Morales é latino. Ele se tornou um ícone da série Ultimate.

A Marvel também colocou, num universo alternativo, o personagem machão Wolverine dando um beijo gay no super-herói Hercules, o que provocou a fúria de muitos que gostam do X-Men.

Mas nada disso é à toa.

A Marvel Comics foi criada em 1939 com o nome de Timely Comics. Surgiu do empreendedorismo de Martin Goodman, que publicava romances pulp e revistas masculinas. De acordo com o biógrafo Sean Howe, autor do livro “Marvel Comics: A História Secreta”, a editora não se preocupava muito com a originalidade em seus primeiros anos. Copiava a fórmula do que dava certo editorialmente, o que rendeu salários milionários e um espaço no Empire State em Nova York.

Uma de suas cópias mais bem-sucedidas nos primeiros anos foi justamente o Capitão América. Alter-ego do militar Steve Rogers, que recebeu um soro de super-soldado, o herói foi criado em março de 1941.

Representou o espírito patriótico norte-americano no lugar do Super-Homem, da concorrente DC, que é um alien.

O capitão foi um sucesso estrondoso entre os voluntários da Segunda Guerra Mundial, além de ter catapultado a carreira de um roteirista talentoso na empresa: Stan Lee.

Capitão América
Lee subiu em cargos na Marvel e manteve desenhistas talentosos como freelancers, como Joe Simon, Jack Kirby e Steve Ditko. O fim da guerra trouxe a crise financeira para a companhia, o que forçou o roteirista a sair das cópias e arriscar enredos originais. Stan Lee criou o Quarteto Fantástico em 61, o nerd Homem-Aranha em 62 e a equipe de mutantes dos X-Men em 63. Seu auge nos quadrinhos foi durante a contracultura norte-americana, transformando a Marvel Comics em uma editora que sabe conectar seus personagens.
Hoje Stan Lee é presidente e principal publisher da Marvel. A empresa foi vendida para a Disney em 2009 por cerca de 4 bilhões de dólares. Não é mais só uma editora de quadrinhos, mas sim uma empresa de entretenimento.
O mercado impresso não é mais prioridade da empresa, movendo cerca de US$ 30 milhões mensais. Motivos não faltam, já que seus exemplares podem ser encontrados pirateados na internet a distância de alguns cliques no Google. O negócio muda nas bilheterias de cinema. Nas maiores do mundo, a liga de heróis Vingadores, que foi para as telonas em 2012, aparece em terceiro lugar com arrecadação de US$ 1,5 bilhão. E em sexto lugar está Homem de Ferro 3, com 1,2 bilhão acumulado.

Mesmo assim, a Marvel tem a ousadia em seu DNA dos quadrinhos. Lançou heróis alternativos e a série Ultimate entre os anos 90 e 2000. Brinca com linhas alternativas de história mais do que a concorrente de DC, que só tentou matar Super-Homem em 1993, mantendo enredos mais conservadores e menos radicais.

O único grande problema da Marvel Comics é falta de roteiristas mais talentosos. Stan Lee foi o grande gênio de enredos e argumentos da empresa, mas poucos ganharam destaque depois dele além das ilustrações. Já a DC lançou o selo Vertigo em 93.

Essa criação popularizou o autor Alan Moore, responsável pela reformulação do Monstro do Pântano, por V de Vingança e pelos heróis decadentes de Watchmen. Enredos ainda mais profundos seriam criados pelo crítico de arte e jornalista Neil Gaiman, autor da série de quadrinhos Sandman.

A Marvel tenta abarcar minorias, tenta fazer histórias alternativas válidas e em sintonia com nossa realidade no mundo. Mas não basta criar heróis gays, negros ou mulheres nos quadrinhos sem roteiros do calibre de um Moore ou de um Gaiman. Um Capitão América distante do patriotismo ufanista da década de 40, um Thor sem testosterona e um Aranha ainda mais frágil do que Peter Parker podem não ser o suficiente.

Homem Aranha

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