A consagração de Birdman

A invasão mexicana no cinema americano está completa
Lucas Gutierrez, DCM

"A invasão mexicana no cinema americano está completa. Depois de Guillermo Del Toro ser alçado ao posto de menino de ouro nerd (ele era o nome original pra dirigir a trilogia ‘O Hobbit’) e de Alfonso Cuarón ter conquistado todas as glórias que a indústria oferece com ‘Gravidade’, no ano passado, Alejandro González Iñárritu, a terceira cabeça do grupo – que mantém uma produtora em conjunto no México, a Cha Cha Cha Films – voa alto e consolida seu lugar nos Estados Unidos com ‘Birdman – ou a Inesperada Virtude da Ignorância’, e agora seus Oscars de Filme, Direção, Roteiro Original e Fotografia.

Iñárritu não é novo em Hollywood. Três anos depois de chamar atenção com seu primeiro longa, o magnífico ‘Amores Brutos’ (2000), ele já estava nos EUA, lançando ’21 gramas’, reconhecido pelos americanos como um dos grandes filmes daquele ano. Em 2006, seu ‘Babel’ foi indicado a 7 Oscars, incluindo Filme e Diretor, até então uma façanha inédita para um mexicano.

Mas se ’21 gramas’ e especialmente ‘Babel’ arrebataram os EUA, o diretor também recebeu críticas de que seus filmes apresentavam um crescente senso de pretensão e auto-importância. Ao mesmo tempo, sua colaboração com o escritor Guillermo Arriaga, parceiro na trilogia Amores-21-Babel e responsável pela arrojada e eventualmente desgastada estrutura de histórias paralelas contadas de forma não-linear, era dissolvida numa briga pública que chegou a banir Arriaga do Festival de Cannes.

Com outros parceiros, Iñárritu escreveu e filmou ‘Biutiful’ (2010), co-produção México/Espanha. Aqui, o cineasta tentou conciliar uma narrativa realista com uma temática mística – o filme traz o médium Uxbal (Javier Bardem) lidando com um câncer terminal.

Agora, em ‘Birdman’, ele equilibra realismo, surrealismo e metalinguagem num projeto original e raro de se ver em Hollywood.

– Alejandro, não há uma pessoa aqui que não vai aparecer pra trabalhar no seu próximo projeto – disse um emocionado Michael Keaton, ao vencer o Globo de Ouro de Ator em Musical/Comédia.

O filme segue Riggan Thomson (Keaton, brilhante, com a urgência de quem está no limite de perder a cabeça), um ator em decadência cuja grande realização foi ter vivido no cinema o herói dos quadrinhos Birdman – a semelhança da trajetória do personagem com a de Michael Keaton, o Batman do início dos anos 90, não é mera coincidência. Na busca por conseguir afirmação artística e reinventar sua carreira, Riggan está prestes a estrear uma peça na Broadway em que ele dirige, atua e adapta um conto de Raymond Carver.

Essa é a descrição simplista de um filme corajoso que, desde a sua primeira imagem, encaixa elementos de fantasia numa narrativa realista, e o faz de forma muito bem-sucedida, com o uso constante de metalinguagem e as intervenções do alter-ego do protagonista adicionando camadas e camadas de reflexão sobre o que está acontecendo na tela. No fim, os temas se desdobram, fala-se de arte, do ofício do ator e do artista, do papel do espectador, da necessidade humana de se fazer importante.

E consequentemente, sobra pra todo mundo: para os atores que vestem o manto vazio da celebridade Hollywoodiana e vem buscar reconhecimento artístico no teatro, para a crítica que com uma canetada de vaidade sepulta um trabalho colaborativo de meses, para o público que assiste à peça pensando em qual restaurante vai jantar depois, para a geração millenium preocupada com a moda da semana na internet. Tudo isso sem, necessariamente, com que os realizadores sejam excluídos deste processo de escrutínio. Afinal, a metalinguagem está lá o tempo todo, nos fazendo pensar sobre o que está sendo dito e como está sendo dito.

Conduzido pela sensacional fotografia de planos contínuos de Emmanuel Lubezki (segunda vitória consecutiva no Oscar, depois de vencer ano passado por ‘Gravidade’), que a montagem de Douglas Crise e Stephen Mirrione faz parecer uma única tomada, ‘Birdman’ se passa quase que por completo num teatro da Broadway, entre corredores, bastidores, camarins e palco. A trilha consiste unicamente de uma tensa levada de bateria composta por Antonio Sanchez. E num cinema que valoriza excessivamente as sequências de ação e efeitos especiais, Iñárritu entrega momentos cinemáticos esplêndidos quando Keaton caminha pela Times Square de cueca ou dá vazão às suas fantasias de Homem-Pássaro, e captura algumas das melhores cenas puramente dramáticas (leia-se: dois atores contracenando) dos últimos tempos no cinema americano, como a de Riggan com sua filha (Emma Stone), a de Riggan com a crítica (Lindsay Duncan) ou qualquer uma que envolva o personagem de Edward Norton (fenomenal).

Uma pena que, como de costume, haja menos espaço para as mulheres, apesar de Stone, Duncan, Naomi Watts, Amy Ryan e Andrea Riseborough trabalharem muito bem com o material que lhes foi dado.

Domingo, ‘Birdman’ foi o grande vencedor da noite. E ainda que eu, particularmente, seja descrente, pode dizer muito sobre o que há por vir no cinema americano o fato de vermos lançadas no mesmo ano – e louvadas com sucesso de público e crítica e reconhecimento da Academia – obras originais e inovadoras como ‘Birdman’, Boyhood’ (indicado a seis Oscars e vencedor na categoria Atriz Coadjuvante, para Patricia Arquette) e ainda ‘Whiplash’ (premiado nas categorias Edição, Mixagem de Som e Ator Coadjuvante, para JK Simmons).

E é curioso que, num tempo em que a premiação da Academia esteve repleta de olhos azuis, sem qualquer negro indicado em cinco das seis principais categorias do prêmio (John Legend e Common, negros, vencendo por ‘Glory’, música original do filme ‘Selma’), não só um latino tenha sido o grande vencedor da noite de Hollywood (pelo segundo ano consecutivo) como sejam os mexicanos Iñárritu e seus amigos Cuarón e Del Toro, alguns dos responsáveis pelo que de mais interessante o cinema americano produz na atualidade."

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