Inocência perdida. Por Fabio Hernandez


Fabio Hernandez, DCM

"Num filme clássico, Laura, um personagem se apaixona pela mulher que vê num quadro. É um policial, e a mulher era a vítima de um assassinato que cabia a ele investigar. Isso acontece de vez em quando, você ver alguma coisa e ficar com o coração batendo forte. Comigo, por exemplo. Vi outro dia no YouTube, por acaso, uma cena de um filme que sequer sabia que existia, Flashbacks of a Fool.

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É de 2008, e o papel principal é de Daniel Craig, o atual James Bond. A cena é uma recordação dele quando adolescente, percebi depois ao pesquisar o filme e ver o trailer.

Toca uma música linda, que eu também desconhecia, do Roxy Music, e o garoto apaixonado é conduzido a uma dança com dublagem pelo seu primeiro amor. When You Were Younger, cuja letra é simples e tocante, é a canção. Não me lembro de outra cena de filme tão bonita que eu tenha visto nos últimos anos.

O trecho essencial da música: Shake your hair girl with your ponytail/Takes me right back (when you were young)/Throw your precious gifts into the air/Watch them fall down (when you were young)/Lift up your feet and put them on the ground/You used to walk upon (when you were young. Balance sua cabeça com o rabo de cavalo, menina, e assim eu volto no tempo, numa tradução meia boca do começo. E por aí segue a letra, lírica e evocativa.

O diálogo naquela cena diz um bocado para mim e minha geração, que descobriu o mundo nos anos 70. Num determinado momento, ele pede a ela que escolha entre David Bowie e Brian Ferry, do Roxy Music, e ela diz que não é justo. Se fosse para escolher entre um deles e o Deep Purple, tudo bem. Mas Bowie e Ferry são ”deuses”, ela diz. Ela fala de Jean Genet e Burroughs, escritores malditos que naquele tempo eram avidamente lidos por jovens como os do filme, e como eu mesmo.

Vi trechos do filme, caoticamente, no YouTube. O diretor dá algumas explicações. Pelo que percebi, é um cruzamento de Verão de 42 com Imensidão Azul. Craig faz um ator de sucesso que acaba vítima da bebida sem limites, e tenta buscar a redenção voltando ao passado, para o lugar em que viveu sua era da inocência e em que conheceu a garota que o fez ver o mundo sob um ângulo diferente. Sempre que vejo esse tipo de situação, volto a Gatsby, de Fitzgerald, e sua frase sublime final segundo a qual remamos todos contra a corrente, em busca dos dias passados.

Minha era da inocência, então, parece me cercar por inteiro. Papai, mamãe, meus irmãos, meus amigos, a esquina em que nos reuníamos, todos nós no esplendor que a memória garante. O futebol, a camisa do meu time, o uniforme da escola, o ônibus branco e azul, a placa do ginásio, o sorvete de chocolate no parque, o fusca vermelho do meu pai, o cabelo majestosamente protegido pelo laquê de minha mãe, o mingau.

Os gibis do Fantasma, do Mandrake, do Superman, do Cavaleiro Negro, do Batman. Mancha Negra e Mickey, Maga Patológica e Madame Min. Hercule Poirot e Miss Marple, Pedrinho e Emília. Dona Isabel e Zé Verdureiro.

E ela. Olhos verdes, vestido azul e branco de escoteira, ela mesma, a quem um dia, muito tempo atrás, dei uma foto dedicada à menina de 15 anos mais linda que jamais existira, ela, exatamente ela, que fez o chão tremer pela primeira vez para mim, assim como a garota do filme que sequer vi, mas pelo qual fiquei obcecado como um tolo."

Um comentário:

ozymandias disse...

Poxa, bacana o tema e sua escrita também.Obrigado.

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