Nos bastidores de um filme pornô filmado em realidade virtual

DJ Pangburn, Vice

Quando Todd Glider, CEO do estúdio pornográfico de realidade virtual e empresa de mídia Badoink, me pediu para chegar em uma filmagem de um de seus filmes em RV, não pude deixar de pensar naquela cena de "O Grande Lebowski" em que o protagonista conhece o magnata do pornô Jackie Treehorn em seu palacete em Malibu.

Com aquele ar de empreendedor das antigas, o milionário tenta convencer o Cara sobre o futuro da pornografia. "A nova tecnologia nos permite entregar coisas muito excitantes em software erótico interativo. É a onda do futuro, Cara. 100% eletrônico", diz Jackie.

No meu caso foi pouco diferente. Em vez de colar em um palacete, fui até um prédio de cinco andares em Hollywood Hills. A filmagem em RV ocupa um estúdio no último andar da mansão. No espaço a ação se restringe às áreas da entrada e sala de estar. Ambas espaçosas e modernas, com paredes brancas e mobília de bom gosto. Nada exótico, nada de ostentação. É impressionante o quão normal parece –em termos de mansões de Hollywood Hills, claro.

Após uma espiadinha nas duas câmeras de RV que ficavam à esquerda de um refeitório, Glider me apresenta ao diretor Nick Melillo, sentado em uma mesa num pequeno escritório em meio à sala de estar. Ele passa pela mesa e logo aperta minha mão pouco antes de mandar um assistente "tirar aquela foto do Bill Clinton da parede", então sai tirando fotos do equipamento de RV. Os demais produtores e assistente agem como em qualquer outra produção cinematográfica.

Entre tragadas em seu onipresente cigarro eletrônico, Glider fala sobre Melillo: "Eis o Burt Reynolds do pornô em RV" - referência ao personagem de Reynolds em "Boogie Nights", Jack Horner.


Em termos de aparência, Glider e Melillo não passam a impressão de serem comerciantes de putaria. Glider tem um jeitão de homem de negócios e fala como um nerd de tecnologia. Melillo, com seus cabelos grisalhos, óculos escuros, shorts e camisa de manga curta, parece como qualquer tio seu. Sua voz, porém, é Hollywood pura, como uma versão mais de boas do chefão da Capitol Pictures Jack Lipnick em "Barton Fink".

Glider me fala que Melillo é o responsável pela criação do "visual Brazzers" anos atrás: "peitões, bundonas, muita cor e iluminação de qualidade". O subtexto aqui é que Melillo está trazendo peitões, bundonas e uma excelente iluminação ao pornô em RV.

Após a inspeção inicial, o set –uma sala com vista para uma piscina, para um amplo deck em mármore e para Los Angeles –parece profissional o bastante. Há um par de luzes Kino Flo, um esquema de monitor bacana, cabos elétricos e uma área próxima à piscina em que a equipe e as estrelas dão entrevistas em vídeo.

Para esta produção, o enredo é o típico pornô americano: a atriz Christie Stevens interpreta uma esposa-troféu hollywoodiana que atende a campainha e se depara com um vendedor de aspirador de pó interpretado por Isiah Maxwell.

Após uma ceninha na entrada, eles adentram a sala, onde Stevens fala a Maxwell que não tem grana e seu marido a mataria se ela o encontrasse na casa. "Talvez", ela pondera, "outro esquema poderia ser feito". Aí então Stevens se despe e puxa o pau de Maxwell para fora e comenta: "Você deve vender muitos aspiradores".

Solto um risinho abafado. É surreal demais pra mim ouvir este diálogo brega de pornô ali do lado, o que só piora quando imagino as pessoas em suas casas assistindo aquilo em seus headsets de realidade virtual.


A Euclid Virtual Reality Systems, empresa fundada por Samuel Burton e Robert Sledd, é a responsável pela câmera utilizada na filmagem. Levando em conta a nada sutil referência ao pai da geometria, Burton e Sled são os nerds entre os nerds. (A Euclid começou como um laboratório de pesquisa e desenvolvimento em RV, mas mudou de ramo para a pornografia para testar seus métodos.)

Enquanto a Euclid oferece uma câmera de 360 graus composta por 12 GoPro Heroes alojadas em seu próprio case impresso em 3D, a equipe escolheu um sistema de 180 graus com duas Sony a7RII e lentes olho de peixe Rokinon 8mm –tudo acompanhado por dois Metabones Speed Boosters para uma visão ainda mais ampla– também montada em um case 3D.

Eles decidiram filmar tudo em 180 graus porque Melillo queria ter controle da iluminação e poder posicionar eu e alguns outros jornalistas bem no meio da filmagem. Glider, Melillo e Burton disseram que a filmagem seria bem menos interessante se estivéssemos em outro cômodo e fosse usada a câmera de 360 graus.

A Euclid roda um feed de vídeo em tempo real por meio de um software chamado Video Stitch direto para um Oculus Rift, um sistema que, de acordo com Burton, permite a eles criarem uma espacialização temporária do material das duas câmeras para "ajustar o efeito 3D". Isso tudo serve para garantir que as câmeras estejam criando o efeito de 180 graus corretamente. O processo, conhecido como stitching, só se aplica às filmagens em 360, em que as imagens de dez ou mais câmeras devem ser unidas.

"Os vídeos em 360 exigem muito stitching antes de ficarem nítidos", disse Burton. "É um processo que melhora cada vez mais com o desenvolvimento do setor. Esperamos que a Adobe resolva adicionar suporte ao stitching no After Effects ou Premiere algum dia."

Para testar se algum sacríficio havia sido feito ou não ao satisfazer a curiosidade da imprensa, coloco o Oculus Rift pouco antes da filmagem e percebo que 180 graus oferecem uma imersão mais que suficiente. O que importa é o sexo na frente dos usuários, não na parede atrás deles.


Assim que começa a filmagem, meus olhos alternam entre o sistema de monitoramento da Euclid –monitores de alta resolução para cada imagem em olho de peixe de cada câmera –e os atores em seus trabalhos.

Alguns membros da equipe sentados no refeitório e foyer não parecem muito interessados no que rola ali na sala. Outros, como o cinematógrafo Sledd, só observam o monitor e se certificam de que o sistema não trave - o que acontece duas vezes, mas nada grave. Burton me garante que a edição não deve ser nenhum problema.

Quando Stevens e Maxwell saem da felação para trepar mesmo, Melillo os dirige. Ele pede para os atores acelerarem o ritmo "agora que está tudo bacana e molhado". Este controle do ritmo ecoa o que Melillo me disse antes da filmagem.

"A coisa mais importante no pornô de RV é 'ter seu ritmo'", disse Melillo. "São estrelas pornô, como cavalos de corrida: quando a porta abre, querem fazer tudo o mais rápido o possível. Não estão acostumados a fazer o inverso para criar um clima."

Após a primeira travada no sistema, Melillo chega o mais próximo possível da ação sem ultrapassar o limite do arco de 180 graus. Melillo quer que Stevens fique mais perto das câmeras. Se ela ficar muito longe, as olhos de peixe diminuem sua presença e a característica imersiva do sexo virtual.

Stevens, ele diz, pode estar em qualquer ponto a 70 centímetros ou 6 metros e ainda estar nítida no vídeo. "Em determinado momento, a resolução possível no headset se torna uma limitação e objetos mais distantes ficam pouco claros", comenta.

"Seus peitos parecem gigantescos de perto", diz Melillo a Stevens. "Então se você conseguisse fazer eles pularem, seria ótimo."

Mylo diz que o maior desafio no pornô de RV é que a equipe só tem dois ângulos. Stevens tem que fazer a maior parte do trabalho ao olhar nas lentes das câmeras para estabelecer a ilusão de primeira pessoa virtual. Ela, mais que o homem, deve lidar com a câmera. Durante a gravação, Maxwell fica travado em uma posição porque a câmera está bem em cima da sua cabeça, enquanto Stevens teve que se despir, fazer oral, dar início à penetração e tudo mais.

Maxwell, que estava filmando um pornô em RV pela primeira vez, disse que a necessidade de ficar parado durante o sexo foi um enorme desafio. "É difícil ficar imóvel", disse. "Quero fazer tantas coisas quando toco em uma mulher, é preciso concentração para não seguir estes impulsos. E tente só segurar o orgasmo quando uma mulher linda está em cima de você."

Stevens também comenta que a posição fixa da câmera é a maior diferença entre um pornô de RV e um comum. Em uma filmagem típica, Stevens e demais atores não olham na câmera.

"No caso da RV, meus olhos ficam colados na câmera o tempo todo, e o ator não pode interagir comigo exceto por alguns movimentos com as mãos, então foi meio que um monólogo com sexo", diz a atriz. "O contato visual com a câmera certamente é o mais importante para tornar a experiência mais imersiva para o espectador."

"Fazer a maior parte do trabalho foi dureza, já que estávamos limitados a duas posições apenas: cavalgada e reversa. Minhas coxas estavam queimando!", comenta. "Mas não é nada que não dê pra aguentar. Também rolou um strip e um boquete, o que ajudou."

Depois de pouco mais de meia hora de filmagem, Melillo diz a Maxwell e Stevens que é hora de finalizar. Maxwell cumpre o pedido. E antes que perceba, acabou. Stevens e Maxwell somem. O restante da equipe desmonta e embala o equipamento.

Fico ali pensando se o pornô em RV é mesmo o futuro. De cara as pessoas precisam de headsets e eles ainda não se popularizaram. Glider, como esperado de um produtor de pornografia em RV, não tem dúvidas.

"O entretenimento adulto anda de mãos dadas com a tecnologia agora", disse. "Um estúdio morre for pra internet e manjar de tecnologia."

No final das contas, Glider crê –e não está sozinho nisso– que o pornô em RV se integrará com acessórios de feedback háptico. Com o amadurecimento desta tecnologia, aparelhos como os da Kiiroo, que oferece consolos e "dispositivos para masturbação", permitirão aos usuários viver em tempo real a sensação de uma vagina ou pênis em um filme de RV. Glider quer levar a Badoink até lá.

"Não é só ver, é sentir", afirma Glider. "São biosensores e todas essas coisas juntas para oferecer a você uma experiência que se assemelhe ao real que ocorre no cotidiano. Demorará um pouco para que isso aconteça: primeiro as pessoas tem que entrar nessa de RV e então dizer 'Kok, quero ir além.'"

Stevens, que disse ter curtido filmar em RV porque gosta de tomar parte no que há de mais novo em tecnologia, concorda com Glider.

"Penso que a RV será um sucesso na indústria ao passo em que a tecnologia acabará se popularizando", disse. "Penso que sempre haverá espaço para o pornô em 2D comum, mas acho que passaremos a ver muito mais RV."

Maxwell acha que é cedo demais para afirmar que a RV é o futuro da pornografia.

"O que importa mesmo é o timing e os fãs podem se ligar nisso agora ou daqui a dez anos quando a tecnologia melhorar", disse. "A RV vai além nos nossos sentidos, mais que a TV ou monitores de PC, promovendo produtos que ressaltam estas características. Luvas de RV seriam excelentes para sentir pegar num peito, além de aromas relacionados às suas garotas favoritas."

Até que a experiência se torne mais interativa, os estúdios esperam que os clientes paguem uma assinatura de 29,95 dólares para streaming ou download de pornô em RV. Ao menos até que os sites estilo "tube", como Glider e os outros se referem ao império do PornHub e seus imitadores, entrem no jogo.

"Não é como se fôssemos reinventar o sexo ou novas posições", disse Melillo. "Só vamos mostrar uma nova experiência. Tem duas ou três empresas fazendo isso, mas já vi o material deles e não está legal."

"Contanto que você seja o primeiro em qualidade, eles virão", disse.

Tradução: Thiago "Índio" Silva 

Leia no site da Vice: Nos Bastidores de um Filme Pornô Filmado em Realidade Virtual

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