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Indicado ao Oscar, Boyhood está longe de ser banal

As mudanças do jovem Mason (Ellar Coltrane) ao longo de Boyhood
"No filme, levamos quase três horas para perceber não apenas que o tempo passou, mas que ele passou e não nos damos conta

Matheus Pichonelli, CartaCapital

Ainda dá tempo de falar sobre Boyhood? Se sim, vamos lá. Antes de assistir, a frase que mais ouvi foi: “é uma história comum, só que filmada em doze anos”.

De fato: não há nada na trama que valha uma sinopse a não ser o fato de Richard Linklater ter filmado um garoto de seus cinco, seis anos, até o fim da juventude. Como se fosse pouco.

O filme tem pouco menos de três horas. Nesse intervalo, uma criança curiosa com formigas e outros assuntos ao seu alcance na natureza se transforma num jovem universitário prestes a descobrir um outro lado do mundo. Como todos nós. O esforço para realizar o desafio da filmagem é, em si, um assombro: a cada corte o personagem surge um ano mais velho, mas as transformações são sutis, quase imperceptíveis. Quando vemos, o pequeno Mason está às turras com as mesmas questões – afetivas, familiares, vocacionas – que nos emaranhavam até bem pouco tempo atrás. Levamos quase três horas para perceber não apenas que o tempo passou, mas que ele passou e não nos damos conta.

'Boyhood', o filme de 11 anos

A jornada cativante de Ethan Hawke e Ellar Coltrane
"Vencedor do Festival de Berlim, diretor Richard Linklater filmou o crescimento de um ator dos 5 aos 18 anos para ilustrar a trajetória da infância à juventude

Orlando Margarido, CartaCapital

O americano Richard Linklater é um diretor de expedientes incomuns. Se usa a animação, o faz numa técnica diretamente sobre os atores, como em Waking Life (2001). Se investiga como seria o relacionamento amoroso, e trivial, entre um homem e uma mulher por décadas, leva a questão a sério e dilata o tempo na mesma medida. 

Sua trilogia das fases de vida do casal começa em 1995 com Antes do Amanhecer e termina com Antes da Meia-Noite, realizado no ano passado, sempre com a mesma dupla de atores. Como se deveria supor, então, o também difícil crescimento e maturidade de um rapaz? A resposta vem prodigiosa em Boyhood, projeto que garantiu a Linklater o Urso de Prata no Festival de Berlim deste ano, como Melhor Diretor.