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Grupo indígena faz rap em guarani para imortalizar idioma - e continuar vivendo


"Banda, chamada Brô MCs, faz um rap diferente, misturando bases clássicas com instrumentos de origem guarani kaiowá e toques da musical brasileira

Camila Moraes, Opera Mundi

"É a mesma coisa que a gente chegar na casa de alguém e falar: 'eu descobri essa casa’. É que nem se fosse assim aqui, nas histórias”. A frase é de Charlie, integrante dos Brô MCs, grupo indígena de rap que é original de uma cidadezinha próxima de Dourados (Mato Grosso do Sul), na divisa do Brasil com o Paraguai. Na dúvida se ele está falando da colonização da América do Sul ou da constante invasão e degradação de terras indígenas no país, esclarece-se: das duas coisas. O tratamento de exclusão e desrespeito que se dá aos índios por aqui é o mesmo desde 1500, e é contra que cantam os Brô MCs. E em idioma original.

A banda faz um rap diferente, misturando bases clássicas com instrumentos de origem guarani kaiowá e toques da musical brasileira.


O escolhido pelo grupo foi o ritmo norte-americano com letras em guarani e em português por várias razões. Primeiro, porque ele surgiu do contexto das oficinas oferecidas em um Ponto de Cultura da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). Os quatro rapazes que o fundaram participaram de aulas de dança da CUFA (Central Única de Favelas), aprenderam a dançar o rap, e então um deles começou a compor letras de música. Em 2008, nascia a formação básica dos Brô Mc's: Bruno, Charlie, Kelvin e Clemerson.

Rap versus rap (e os meios de comunicação no meio)


“Jurei pra mim há alguns anos que não falaria mais sobre este assunto. Um, por ser óbvia a minha posição a respeito disso. Outro, porque cada um faz o que bem entender de sua vida e carreira.

Eu não vi rap na TV durante minha infância e adolescência. Vi em casa, meu pai sonhando em ser DJ, sem ter lugar pra tocar, coitado, amava o rap como eu e você, mas não tinha onde mostrar seu talento. O resultado? 

“Crisântemo“, seu Miguel foi pra um abismo de frustração, onde encontrou o alcoolismo como fiel parceiro e o fim já contei mil vezes, todos sabem.

Quantos igual ao meu pai sucumbiram sonhando em mostrar seu dom pro mundo através do hip-hop? Muitos, muitos mesmo. Só eu conheço mais de 20 histórias tristes de irmãos que abandonaram seu sonho, por não haver um circuito que exponha essa demanda. Dá pra escrever um livro sobre isso. Em “Então Toma” eu disse – “vou me levantar por todos que caiu” –, é isso o que faço. Levo minha verdade onde for respeitado, mostrando que existem outras versões do Brasil que precisam ser expostas urgentemente. Se não para vencer de vez o racismo, a desigualdade social e os preconceitos, pelo menos amenizar e criar pontes para que os ouvintes/espectadores façam isso.