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Pasolini sempre atual: Estamos todos em perigo

Em sua última entrevista, Pasolini afirmou: 'estamos todos em perigo'. Era uma referência ao mundo do hipercapitalismo e da brutalidade. 

Lea Maria Aarão Reis, Carta Maior

Como viveu o seu último dia de vida, em Roma, é o tema do filme de Abel Ferrara, agora em cartaz (Pasolini/2014) no Brasil, sobre aquele que, na opinião de vários intelectuais, foi um dos últimos e legítimos pensadores europeus. Trata-se de mais uma homenagem cinematográfica ao poeta, crítico, cineasta, jornalista, a quem, no seu passaporte, sempre preferiu que registrassem, com simplicidade e abrangência: “escritor”.

Naquele dia 01 de novembro de 1972, o diretor e autor de alguns dos mais célebres clássicos do brilhante cinema italiano dos anos 60/70, autor de O Evangelho segundo São Mateus (64), Teorema (68), Medeia, de 69; Decameron (71) e Os 120 dias de Sodoma (Saló), de 1975, entre vários outros filmes inesquecíveis, naquele dia ele acordou e levantou da cama, na casa onde vivia junto da sua adorada e idosa mama, leu os jornais da manhã, deu instruções à diligente secretária (sua prima), e trabalhou, na máquina de escrever, em um roteiro do que seria sua próxima produção, no escritório do apartamento romano. Voltara de Estocolmo na véspera e aguardava a hora do almoço e a visita da atriz Laura Betti (interpretada pela portuguesa Maria de Medeiros), uma grande amiga e, à tardinha, esperou o jornalista Furio Colombo. O repórter, depois, se tornou célebre por ter sido o último a conversar com Pier Paolo, o Pierucci. Nesta entrevista, ele alertava, influenciado pelas suas leituras de Marcuse, a quem admirava: “Estamos todos em perigo”. Era uma referência ao mundo do consumismo, do egoísmo, das sociedades de massas, da brutalidade, do hipercapitalismo e da obrigatória permutação do conceito de cidadão pelo de consumidor. Um mundo que, previu, estava por vir. E veio.  

O que aconteceu com os roqueiros dos anos 80? Leoni, o único que não virou reaça, fala ao DCM

Leoni (esq.) com sua antiga banda nos anos 80
, Diário do Centro do Mundo

"O carioca Carlos Leoni Rodrigues Siqueira Júnior, conhecido somente como Leoni, tem uma carreira dedicada ao pop rock. Fundou e foi baixista e compositor do Kid Abelha entre 1981 e 1986, período em que a banda tornou-se um fenômeno, colecionando discos de ouro. É autor de todos os principais hits (“Seu Espião”, “Como Eu Quero”, “Pintura Íntima”, “Fixação”, entre outras).

Saiu depois de um desentendimento. Fundou a banda Heróis da Resistência e, desde 1993, está em carreira solo. Tem parcerias com Cazuza (“Exagerado”), Herbert Vianna, Léo Jaime, Roberto Frejat, entre outros.

Aos 53 anos, Leoni é uma exceção, uma mosca branca, entre a imensa maioria de seus colegas de geração: uma “pessoa de esquerda”, como ele se define.
Roger, do Ultraje a Rigor, e Lobão são macartistas. Dinho Ouro Preto, do Capital Inicial, não fala coisa com coisa, especialmente em política. João Barone, baterista dos Paralamas do Sucesso, repete clichês sobre “corrupção” sem parar — sempre contra o PT, naturalmente. Tony Belloto, guitarrista do que restou dos Titãs, é autor de frases originais como “é uma merda pensar como o Brasil há 30 anos ou patina, ou piora”. A lista é longa.

“Eu gosto de explodir o estereótipo do anão”: uma conversa com Peter Dinklage, de “Game of Thrones”

, Diário do Centro do Mundo


"Quando Peter Dinklage ganhou um Emmy de melhor ator em 2011, foi um reconhecimento profissional que superou todos os seus sonhos de atuação. Na pele de Tyrion Lannister, a ovelha negra incompreendida mas resistente da família mais poderosa de “Game of Thrones”, Dinklage é hoje um dos maiores atores da TV.

“Eu gosto desse papel, tanto pela qualidade da trama quanto pelo fato de ele explodir totalmente o estereótipo do anão”, diz. “Tyrion é um ser humano plenamente realizado e uma figura central na história. Ele é um mulherengo, um bebedor, e alguém que ainda tem uma bússola moral maior do que a maioria dos outros personagens da série. É o tipo que eu estive procurando por toda a minha vida”.

Aos 43 anos, nascido e criado em Nova Jersey, Peter Dinklage aprendeu a viver com sua baixa estatura sem ter de suportar muito sofrimento social. Seu pai vendedor de seguros e a mãe professora de música o enviaram para uma escola católica onde seu amor pela atuação foi estimulado por um padre excêntrico, estudante sério do cinema de autor, que lhe apresentou filmes de diretores como Cassavetes, Truffaut, Fellini e Antonioni.

9 frases do Criolo que deixaram o Lázaro Ramos perplexo

A alma flutua. O corpo precisa de alimento. Se não tem leite, a criança chora.”

/ BuzzFeed

Em 2013, o Criolo deu uma entrevista ao Lázaro Ramos no programa Espelho, do Canal Brasil.

Veja o vídeo

O canal publicou em seu site um trecho do encontro com o título “Criolo mostra sua perplexidade em relação à classificação de classes na sociedade”, que pegou fogo na internet só agora. Selecionamos algumas frases.

1. "O que que é a ascensão da classe C? É tipo leite que a gente comprava, leite tipo C, aí tinha um tipo A, da fazenda… A gente já ficou numa caixinha de novo, entendeu?"

2. "É dinheiro? Ascensão da classe C é dinheiro? Classe C de quê, de nota C, que você não tirou nem A nem B?"

3. "Tem que dar um ou dois passinhos atrás pra… A alma flutua. O corpo precisa de alimento. Se não tem leite, a criança chora."

4. "Dependendo do livro, uma arma você compra pelo décimo do preço desse livro."

5. "E que ascensão é essa? Alguém nos ajude, Lázaro, a entender. Porque senão a gente só vai reproduzir o que andam dizendo por aí. "

6. "Mas a gente vê o rosto do nosso povo, e o nosso povo é nota A. A+."

7. "A gente sofreu, a gente vomitou, a gente voltou e aceitou que a gente não consegue fazer nada do que o pessoal fala que é pra gente fazer pra gente ficar boneco na foto."

8. "Aí nos sobrou o quê? A beleza das artes que pra muitos é a fraqueza da alma. Porque a gente não consegue se esconder, a gente vai pro palco e mostra a cara."

9. "Quando a pessoa tá ali, tendo pago ingresso ou não, ela tá te protegendo, cara. Ela tá falando: ‘Olha, nesse momento eu tô aqui com você, com as suas ideias, eu tô indo pra ver qual que é a tua, mas tô aqui com você.’ Então você não pode ter medo."

Minha entrevista com Elton John

, Revista Bula

"Assim que adentrei o camarim de Elton John senti o baque dos 19 graus centígrados na cacunda, uma exigência do cantor para tocar em Goiânia, capital plantada no meio do cerrado, na quentura do centro-oeste brasileiro. Elton pareceu-me gordinho, usava um roupão de cor grená e tinha os pés massageados por um serviçal efeminado adornado com mais anéis e piercings do que um varal de roupas no jardim, o qual utilizava um cosmético local feito à base de pequi, produto genuinamente goiano, que deixa a pele hidratada, macia e, claro, com aquele aroma de pequi que o Elton simplesmente achou o máximo.

Como se fora um presidiário de Pedrinhas do Maranhão, eu cravara mais um furo e quase perdera a minha cabeça, não por degola de estilete, não um furo de chucho no meio das vísceras mas, um baita furo de reportagem e um êxtase contido por estar ali a entrevistar um ícone da música pop mundial, uma das mais respeitadas celebridades do showbiz, um nobre cavaleiro da coroa britânica.

Desacostumado à pontualidade dos ingleses, fiz das tripas croissant para chegar no horário agendado com seu agente. Eu receava encontrar um Elton John sisudo, impaciente, mal humorado, suado e monossilábico. Que nada. Munido com aquela peculiar polidez britânica, Sir Elton foi logo me pedindo para sentar numa almofada lilás cravejada com lantejoulas em formato de tamanduá-bandeira (outra exigência bizarra do pop-star), e ordenou que me servissem também um pouco daquele delicioso suco de mangaba com mama-cadela, frutinhas deliciosas do cerrado (quando se encontra algum cerrado intacto, é claro). De quebra, mandou que o massagista magricelo esparramasse um bocado daquele extrato fedorento de pequi nos meus ombros, para que eu relaxasse e me sentisse mais à vontade, gentileza da qual declinei. “Sorry, but I’m allergic to pequis, man”. Todos nos bastidores riram bastante por eu ter me esquivado daquele mimo a utilizar uma evasiva hétero.

"Não é Hollywood básico"


Wagner Moura e Matt Damon em cena do filme "Elysium", estreia de sexta-feira 20

Wagner Moura fala sobre seu personagem em 'Wagner Moura ', com Matt Damon e Alice Braga, e diz que pretende interpretar no cinema um pastor à la Marco Feliciano. "É um imbecil"


Matt Damon acha graça da pergunta. O diretor sul-africano Neill Blomkamp arregala os olhos. É claro que todo mundo no set de Elysium, mix de ficção-científica com drama de fundo social que estreia nesta sexta-feira 20 nos cinemas brasileiros já conhecia o Capitão Nascimento. Embalado pelo sucesso de Tropa de Elite, mais saudado na zona norte do planeta pelos milhares de espectadores e o Urso de Ouro no Festival de Cinema de Berlim do que pela distante discussão em torno de um possível maniqueísmo na narrativa oferecida pelo diretor José Padilha, Wagner Moura, 37 anos, entrou em Hollywood pela porta de frente. “Ele entrou arrombando a porta, bem ao estilo Wagner, né?”, brinca a amiga Alice Braga, também no elenco multinacional do filme, ao lado de Damon, Jodie Foster, o mexicano Diego Luna e o ator-fetiche de Blomkamp, seu conterrâneo Sharlto Copley.

Sorrisão, gestos largos, Moura circula pelo hotel-resort localizado no Caribe mexicano, em evento de promoção dos principais filmes de um dos maiores estúdios de Hollywood, como se estivesse em casa. Mas não parece interessado em uma virada radical na carreira. Este é o primeiro filme do baiano filmado nos EUA, mas não é exatamente sua estreia em Hollywood. Seu batismo foi em uma produção de orçamento infinitamente menor, da Fox, há treze anos. “Depois de Tropa comecei a receber muitas propostas para trabalhar fora do Brasil. Mas, quer saber, se não for muito legal, vou fazer pra quê, por que?”.

"A cultura pode se alinhar às mobilizações"


O diretor Zé Celso durante ensaio no Oficina,
onde acontece a reunião nesta segunda-feira
Foto: Jennifer Glass / Divulgação Oficina

"Para Ney Piacentini, do Instituto Internacional de Teatro, cultura deve ter destaque nas transformações do país. Nesta segunda, ato no Oficina de Zé Celso trata da questão”

Paloma Rodrigues,  CartaCapital

O papel da cultura diante das manifestações populares será alvo de debate nesta segunda-feira 8. O Teatro Oficina promove o ato Cultura Atravessa, uma reflexão sobre as funções da cultura e seus impactos dentro da sociedade brasileira. O presidente do Instituto Internacional de Teatro (filiado à Unesco), Ney Piacentini, que participa da organização do ato, fala a CartaCapital da organização da classe cultural no Brasil e de como os artistas precisam de posicionar com os trabalhadores nas lutas que tomam às ruas. "O artista é um trabalhador como qualquer um. A cultura precisa se alinhar ao povo, porque o povo é a vanguarda de qualquer sociedade", diz ele. Membro do Conselho da Cidade de São Paulo, Piacentini fala da posição da cultura diante do movimento pelo passe livre e nas suas pautas específicas, como a revisão da Lei Rouanet.

O som e o sentido



No quintal de Kleber Mendonça Filho

Fernanda Mena, Folha de S. Paulo

Resumo

Aclamado pela crítica e por festivais internacionais, "O Som ao Redor" se impõe como um raro acontecimento cultural no cinema brasileiro. O diretor levou a Folha à rua em que rodou o longa e expôs matrizes de seu trabalho, enraizado na crítica, no cineclubismo e na obra de Gilberto Freyre, com quem sua mãe trabalhou.
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Em uma rua tranquila em Setúbal, região de classe média a poucos quarteirões da praia de Boa Viagem, no Recife, o som ao redor é o das crianças no pátio do colégio da esquina, o das vassouras de piaçava que investem contra o passeio de pedra e o meio-fio e o das visitas que dispensam a campainha para gritar da calçada por quem procuram. Tudo, porém, abafado pelo ruído constante da construção de torres residenciais avançando contra o casario local.

Rosto colado num muro, olho direito espiando por uma fresta, Kleber Mendonça Filho, 44, vasculha a cena ocultada por tijolos e cimento. O enquadramento não ajuda. Ele pega o celular no bolso da bermuda, estica o corpo, na ponta dos pés calçados em chinelos de dedo, e ergue os braços sobre o muro, equilibrando o aparelho nas mãos. "Cuidado, Kleber! Pode ter um cachorro aí", aflige-se sua mulher, a francesa Emilie Lesclaux, arranhando ainda mais os erres do sotaque.
Tira uma foto e levanta os óculos para avaliar a imagem. "É...", suspira, "já demoliram toda a parte próxima à piscina".

O imóvel do outro lado do muro foi quartel-general e um dos cenários do primeiro longa-metragem de ficção de Mendonça, "O Som ao Redor", o filme brasileiro mais bem recebido e comentado dos últimos tempos.”
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Filipe Ret, a nova voz carioca do rap nacional


Capa do CD Vivaz, que foi lançado
recentemente. Foto: Arquivo Ret.

O rap carioca está bombando e isso é só o começo da história, afirma Filipe Ret, rapper revelação do Rio de Janeiro. Volta e meia está nas chamadas “rodas de rima” [Circuito Carioca de Ritmo e Poesia – CCRP], eventos dos quais participou da construção, que ocorrem todos os dias em todo o Estado fluminense. Com o lema “vamos fazer por nós mesmos”, tem encantado o público jovem com as suas mensagens. São mais de 25 mil seguidores em seu perfil no Facebook, ferramenta que tem ajudado na divulgação do seu trabalho independente. Lançou seu novo CD às vésperas do natal e pouco mais de um mês depois já havia quase 20 mil downloads, e o clipe da sua música Neurótico de Guerra está chegando a meio milhão de views no youtubee já é exibido em canais como a MTV.

Em entrevista ao Fazendo Media, ele conta como se envolveu com o rap e as dificuldades de manter um trabalho com autonomia. Ainda que avesso a rótulo, define a inquietação de suas letras como libertária. Para ele, o artista tem que se posicionar e tem uma função social. Não pensa duas vezes ao criticar os governantes cariocas, a mídia e a influência que a opressão da última ditadura militar deixou na formação cultural do país. A seguir você saberá um pouco mais do que pensa esse novo artista, que acredita na transformação individual das pessoas através da música.
  
Como se deu sua entrada no rap?

Foi na Batalha do Real, meados de 2002. Eu batalhei na época do Marechal, Aori, Shawlin, os caras mais antigos. Era foda, o fervo parecia maior porque era uma novidade muito grande. Foi quando eu comecei a fazer Freestyle... MC tem que começar fazendo freestyle, desenvolver seu flow, participar de batalha pra sentir o drama da parada, a adrenalina do bagulho. Foi uma época fundamental para desenvolver flow, mentalidade, mercado, tudo.

O que inspira os elementos da sua música? Eu sei que você gostava muito de ler filosofia.

É muita filosofia e agressividade né, mano. Eu sou um cara muito agressivo. O que eu passo  é essa filosofia de que a gente tem que ir pra cima. Vamos ganhar a parada, vamos para frente, tá ligado? A galera acaba se identificando. Em relação às referências literárias, é muito Nietzsche, Clarice Lispector, a galera existencialista, Fernando Pessoa e outros. Tive a oportunidade de estudar e ter uma faculdade [jornalismo], professores bons pra caralho, oportunidade de ler muito. Tenho também uma curiosidade muito aguçada, o que é fundamental para um MC.

Depois de rimar eu fiquei muito tempo escrevendo máximas filosóficas, que acabaram virando versos e linhas de peso. A galera se identifica muito, cada linha acaba sendo um soco. A literatura está sempre presente, acho que é fundamental ler e se envolver, conquistar um pensamento esférico  em relação ao mundo, da vida, questionar. Vir inovador para a cena, ter uma parada a mais a dizer. Não surge ninguém novo há muito tempo, tá ligado? Fazer uma parada nova hoje em dia é muito difícil, tem que fazer uma coisa diferente mesmo. Hoje, graças a muito trabalho, a gente recebe pedidos de show até em bailes de comunidade. Funkeiros e pagadoeiros, várias comunidades da Baixada Fluminense, curtem rap, curtem meu som.”
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Lenine: Cultura depende cada vez mais de subsídio


E isso não é bom, acrescentou o cantor e compositor pernambucano, na abertura da 8ª Bienal de Arte e Cultura da União Nacional dos Estudantes (UNE), que deve reunir 10 mil jovens até sabado em Olinda (PE); o músico disse ainda que não acredita em partidos políticos e que o governo trouxe melhorias em vários campos para o País

Mariana Tokarnia, Agência Brasil / Brasil247

Minutos antes de subir ao palco, na abertura da 8ª Bienal de Arte e Cultura da União Nacional dos Estudantes (UNE), o músico Lenine disse que a cada dia a cultura depende mais de subsídio do Estado e que isso não é bom. "Quando a gente fala em financiar cultura, vai ter que falar em eleger quem tem prioridade. Vai ser sempre dependente de quem organizar isso", acrescentou.

Christopher Walken: “Qualquer que seja o personagem, sou eu”



Walken em cena do filme “Dark Horses”, de 2011. Foto: Divulgação

Sean O’Hagan, The Observer / CartaCapital
 
“Foi Mickey Rourke quem chegou mais perto de captar a aura singular de Christopher Walken. “Você sempre pareceu um ser estranho, de outro lugar”, Rourke disse para Walken quando os dois se encontraram recentemente para uma reportagem na revista Interview. “Havia em você alguma coisa de ‘espacial’.”

Hoje com 69 anos, Walken se abrandou um pouco desde que cruzou caminhos com Rourke pela primeira vez, no malfadado épico de Michael Cimino O Portal do Paraíso, em 1980. Mas a descrição ainda parece adequada. Tem a ver com seu sentido de distanciamento: a estranha mistura de calma sobrenatural e ameaça subjacente que ele emana na tela. Como o falecido Dennis Hopper, mas de maneira mais discreta, Walken passou a maior parte de sua carreira interpretando personagens radicais de um tipo ou de outro, enquanto também parecia interpretar a si mesmo.

“Entendo por que as pessoas podem me confundir com meus papéis”, diz, quando converso com ele em sua casa na área rural de Connecticut, onde vive com sua mulher, Georgianne, que é diretora de elenco. “No início eu fiz uma ou duas pessoas perturbadas, e acho que devo ter sido bom nisso, porque pegou. Mas, você sabe, sou um sujeito comum. Fico muito em casa, me esforço para manter distância de toda essa coisa social, as estreias, as festas. Tento viver de maneira tranquila.”
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Stacey Kent: “Gosto de cantores que cantam com a mesma voz que falam”


Stacey: ela é apaixonada pela língua portuguesa
Destaque do jazz contemporâneo, a cantora americana fará quatro shows no Brasil em novembro. De voz delicada, ela diz que seu relacionamento com a voz é natural

Danilo Casaletti, ÉPOCA

O sucesso de Stacey Kent pode ser medido pela quantidade de países por que a turnê de seu álbum mais recente, Dreamer in concert, o nono de sua carreira e o primeiro registrado ao vivo, vai passar. São 25 ao todo, incluindo o Brasil. Nascida em New Jersey, a cantora se radicou na Inglaterra em 1991, quando foi estudar na tradicional Guildhall School of Music and Drama.

Logo no seu primeiro álbum, Close your eyes, em 1997, foi apontada pela crítica especializada como uma nova estrela do jazz mundial. Ao longo da carreira, recebeu com importantes reconhecimentos, como quando foi eleita melhor vocalista de jazz no Jazz Awards britânico em 2001 e no BBC Jazz Awards do ano seguinte. Em 2009, foi indicada ao Grammy, prêmio máximo da música mundial.

Em conversa com ÉPOCA, Stacey falou sobre as apresentações que fará por aqui em novembro e, principalmente, sobre música brasileira, pela qual se apaixonou e, por isso, decidiu aprender português para entender o que os ídolos como João Gilberto, Tom Jobim e Vinicius de Moraes diziam em suas canções.

Em seu álbum mais recente, Dreamer in concert, a cantora gravou três versões de músicas compostas por Tom (“Quiet nights of quiet stars” – “Corcovado”, “Waters of march” – Águas de março” e “Dreamer” – “Vivo sonhando”), além de “Samba saravah”, versão em francês da clássica “Samba da benção”, de Vinicius e Baden Powell. Embora, vez ou outra, cante em português, Stacey, que fala muito bem o idioma, diz que gravar um disco todo em português ainda não está em seus planos. “Eu estudo a língua para mim, não para cantar”, diz.

Nos shows que fará no Brasil, Stacey, além da companhia do marido, o produtor e saxofonista Jim Tomlinson, terá no palco os brasileiros do Trio Corrente, composto por Fábio Torres (piano), Paulo Paulelli (baixo) e Edu Ribeiro (bateria). Eles já tocaram juntos há cerca de um ano e meio, em São Paulo. “Temos um excelente diálogo. Isso é raro de se achar pela vida”, diz Stacey. Os shows da cantora acontecem no Rio de Janeiro (27 de novembro – Citibank Hall), em São Paulo (28 de novembro – Teatro Abril), em Curitiba (29 de novembro – Teatro Positivo) e em Belo Horizonte (30 de novembro – SESC Palladium).

ÉPOCA – Como será o show que você vai apresentar no Brasil?
Stacey Kent –
Vai ser bem especial porque vou tocar com músicos (o grupo Trio Corrente) que geralmente não toco. O meu marido (Jim Tomlinson) também estará comigo no palco. Claro, terá canções do repertório do meu último álbum, Dreamer in concert, com o qual estou fazendo uma turnê pelo mundo. Mas também vamos escolher músicas de acordo com os nossos desejos, digo, os desejos de nós cinco. Estou escutando o que dizem músicos do Trio. Quando tocamos pela primeira vez juntos, há um ano e meio, em São Paulo, eles me disseram que adoram meus discos. Eles também me deram ideia de colocar outras músicas que não faziam parte do meu repertório. Outra coisa muito interessante: desde que anunciamos que iríamos para o Brasil, muitas pessoas foram a minha página no Facebook para fazer pedidos. Elas dizem ‘já ouvi essa música no seu disco tal, mas nunca a vi cantar essa música ao vivo’.
Foto: Reprodução
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“Quero romper a mesmice”


A frase é do artista plástico Jaime Prades, que tem os olhos atentos para as belezas das ruas; ele já expôs suas obras nos principais museus de SP e agora se prepara para divulgar, a partir de 12 setembro, a mostra "Parede s/ parede"; leia a entrevista com o artista

Aline Oliveira, Brasil 247

O artista plástico Jaime Prades tem os olhos atentos para tudo que está na rua. Aqueles materiais abandonados e sujos viram, em suas mãos, peças de artes que transpiram a realidade humana.

A visão apurada para a arte de rua foi adquirida há tempos por Jaime. Nos anos 1980, o artista plástico integrava um grupo de arte urbana, que o ajudou a “desinstalar a repressão da alma”, como ele próprio diz. Aliás, abrir a mente para a arte é uma das principais pregações do artista, que acredita que estamos criando pouco e sendo uniformes demais.

É por esse motivo que Jaime (que já teve suas obras expostas no MAC, MASP, Pinacoteca, MIS e em galerias de Tóquio) irá expor, a partir de 12 de setembro, a mostra "Parede s/ parede", no ateliê galeria Priscila Mainieri, localizado na Vila Madalena, zona oeste da cidade. A exposição fica em cartaz até 6 de outubro e traz mais de 50 peças inéditas de Jaime.

247- Quantas peças serão expostas?
Jaime Prades - Estes trabalhos ao contrário da maioria da minha produção são em pequenos formatos.Serão por volta de 50 obras. Para entrar na exposição o público terá que desviar-se de uma grande pedra de granito. Ela está colocada exatamente no meio da porta. Também vou mostrar uma nova escultura em ferro oxidado de um dos meus personagens "Os pacificadores", e a "graça" que é uma garça. Além delas devo mostrar algumas pinturas sobre lonas usadas, três recortes em ferro e resina e uma escultura com madeiras de rua.

247- São peças feitas durante todos os seus 30 anos de carreira ou você selecionou de algum período?
JP - Todas são obras inéditas a maioria recém saída do forno. Vou continuar fazendo até o dia da exposição.

247- O que você levou em consideração para selecionar as peças que serão expostas?
JP - Apresento a série dos "Brutos"que além de uma referência é uma reverência a arte "Brut". A arte dos ungidos, dos intuitivos, dos simples, dos autodidatas, dos artistas populares, é uma grande fonte de inspiração para mim. Essa arte que surge por um ímpeto inexplicável e incontrolável.  Graças a artistas como Jean Dubuffet, Calder e Picasso entre outros, que resgataram o universo simbólico das profundezas da memória coletiva recriando símbolos empapados de ancestralidade que o nosso repertório imaginário se reconectou com as fontes primordiais.”
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"Fazer show é uma maravilha"


Eramos Carlos está há cinquenta anos na estrada e não se cansa dos palcos

Eder Fonseca,  Panorama Mercantil / Brasil 247

Erasmo Esteves nasceu no bairro da Tijuca na Zona Norte do Rio de Janeiro, sua mãe saiu da Bahia grávida de um homem que não quis assumir a paternidade. Erasmo conhecia Sebastião Rodrigues Maia (que mais tarde seria conhecido como Tim Maia) desde a infância, entretanto a amizade só viria na adolescência por conta da febre do Rock and Roll. Em 1957, Tim Maia montou a banda The Sputniks, os membros da banda eram Tim, Arlênio Lívio, Wellington Oliveira e Roberto Carlos.

Após uma briga entre Tim e Roberto, o grupo foi desfeito, Wellington desistiu da carreira musical, o único remanescente era Arlênio que no ano seguinte resolveu chamar Erasmo e outros amigos da Tijuca, Edson Trindade e José Roberto, conhecido como "China" para formarem o grupo vocal "The Boys of Rock". Participou efetivamente junto com Roberto Carlos e com Wanderléa do programa Jovem Guarda onde tinha o apelido de Tremendão, imitando as roupas e o estilo de seu ídolo Elvis Presley.

Seus maiores sucessos como cantor nessa fase foram "Gatinha Manhosa" e "Festa de Arromba". Com o término do programa, entrou em crise, mas conseguiu se recuperar com a ajuda de seu parceiro Roberto Carlos e de sua esposa, Narinha. Influenciado pela cultura hippie e pelo soul, lança Carlos, Erasmo em 1971. O disco, que abre com "De Noite na Cama", escrita por Caetano Veloso especialmente para ele, traz um polêmica ode à maconha.

Nos anos 90, o trabalho de Erasmo apareceu de forma bissexta na canção. Além de sempre assinar com Roberto Carlos as canções feitas para seus discos anuais, ele lançou dois discos. Homem de Rua, lançado pela Sony Music em 1992, chegou a ter repercussão com a faixa-título, que fez parte da trilha da telenovela De Corpo e Alma, mas a canção era tema do personagem de Guilherme de Pádua, que, ao lado da esposa Paula Tomás, assassinou a atriz Daniela Perez, num crime que chocou o país. Outra gravação de destaque foi "A Carta", na qual Erasmo cantou com Renato Russo.

Somente em 2001 Erasmo voltaria a lançar um disco novo. Em 2010, Erasmo compôs em parceira como Eduardo Lages e Paulo Sérgio Valle um samba enredo para a GRES Beija-Flor, que anunciou um enredo sobre Roberto Carlos para 2011, porém, o samba composto por Erasmo não passou nas eliminatórias, a canção escolhida foi "A Simplicidade de um
Rei", que tem como um dos co-autores, JR Beija-Flor, filho do intérprete da Escola, Neguinho da Beija-Flor. Erasmo lançou um novo disco intitulado Sexo em agosto de 2011, além de recentemente ter lançado o livro "Minha Fama De Mau", onde conta a sua trajetória.


Panorama Mercantil-Além de ser um dos maiores compositores da música brasileira, o senhor é conhecido por falar o que pensa sem meias palavras, principalmente em relação ao sexo. O mundo está mais liberal, mas não ficou mais careta em relação a isso?
Erasmo Carlos- Sim, acho que a culpa é do politicamente correto que incentiva a hipocrisia.


Panorama- O senhor disse certa vez que no auge da Jovem Guarda ninguém tinha consciência dos problemas do país porque ninguém lia jornal. Hoje as pessoas leem mais, nisso incluindo os artistas, e alguns problemas ainda persistem, como vê essa situação?
Erasmo- É um triste retrato da realidade, a impunidade se profissionaliza e desincentiva o protesto do cidadão, mesmo com a overdose de informações.


Panorama- Em 1995, o senhor foi vaiado no Rock in Rio. Como o senhor se sentiu naquela ocasião, já que é um dos precursores do rock no Brasil, e foi justamente vaiado num festival que era de rock?
Erasmo-Naquela época o rock em português era muito popular, e não condizia com os anseios de uma plateia "pseudo" americanizada, que acreditava piamente que Ozzy Osbourne literalmente comia morcegos.”
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Fantoche que lê contos eróticos no YouTube é atração do festival youPIX


Leonardo Luís, Folha de S. Paulo

"A premissa de "Marcelinho Lendo Contos Eróticos", série de vídeos humorísticos do YouTube que, somados, têm mais de 15 milhões de visualizações, foi elaborada pelo diretor e roteirista Erik Gustavo, 24 anos, em uns dez segundos.

Quando Erik sai para passear e deixa o computador ligado, Marcelinho, seu amigo de 12 anos, aproveita para gravar vídeos para o YouTube lendo contos eróticos tirados da internet.

Marcelinho, representado por um fantoche, fica debochando dos contos, especialmente dos absurdos dos enredos e dos erros de português que encontra.

Até agora, 14 vídeos foram publicados. O primeiro saiu no dia 24 de fevereiro deste ano. Pouco mais de quatro meses depois, Marcelinho já fez propaganda de camisinha, e seu criador é reconhecido por fãs sempre que sai à rua.

Erik Gustavo faz todo o trabalho sozinho, inclusive a dublagem do protagonista. Ele vai estar no youPIX, festival de cultura de internet, junto com o boneco. Marcelinho vai ler um conto ao vivo na quinta-feira (5). Erik vai participar de um debate com o tema "Vlogs, como sair da mesmice?" no mesmo dia. 

Folha - Quando surgiu a ideia?
 
Erik Gustavo - Foi bem do nada. Ao contrário do que muita gente pensa, eu não estava lendo conto erótico. Estava só parado sem fazer nada e pensei "poxa, que legal se uma criança lesse contos eróticos e gravasse um vídeo...". Aí pensei que isso poderia dar problema, tanto para quem lançasse o vídeo quanto para os pais da criança. Mas seria muito mais engraçado se fosse um fantoche. Fantoche foi uma parada que eu sempre curti. Eu falei para o Nigel [Goodman, comediante que participa da vinheta de introdução da série]: "O que você acha de costurar um fantoche para mim?" (ele sabe costurar), e o Nigel disse: "Beleza". Eu expliquei: "É uma criança de 12 anos, vai ser assim e assim..." e nasceu o Marcelinho. Foi bem sem pretensão mesmo, só para fazer um vídeo legal. 

Foi o Nigel Goodman mesmo quem costurou o fantoche?
 
Foi ele mesmo. Tem até uns detalhes de amadorismo. A costura é feita na cara. Não é para ser assim. Ele tem uma máquina de costura. Ele fez outros fantoches, que não foram lançados ainda. O Marcelinho foi o último que ele fez. 

Tem algum fantoche que vai ser lançado em breve?
 
Tem um familiar do Marcelinho que vai ser lançado em julho. O Nigel está terminando de costurar. É um cara da família, não posso falar qual parente é. Vai ser engraçado.”
Foto: Reprodução
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Britânico manipula espaço público com suas esculturas


Eduardo Graça, Valor

“Vencedor do Prêmio Turner nos anos 1990 e uma das principais estrelas do universo das artes plásticas na Grã-Bretanha, o escultor Antony Gormley, de 61 anos, abre no sábado "Corpos Presentes - Still Being", sua primeira grande individual no Brasil. A exposição retrospectiva ocupa os três andares e o subsolo do Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, com 11 obras, 50 maquetes, nove gravuras, 25 fotos e seis vídeos.

Depois de passar por Londres e Nova York, a instalação "Event Horizon" reúne 31 esculturas de homens nus (criadas no ateliê do artista a partir de seu próprio corpo) em tamanho real, espalhadas pelo Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo, localizadas em beirais de prédios e no meio da praça.

A mostra fica em São Paulo até 15 de julho, seguindo depois para os CCBBs do Rio e de Brasília. Na mesma época, a mostra "Fatos e Sistemas - Facts and Systems" é inaugurada com obras de Gormley no espaço provisório da galeria britânica White Cube em São Paulo, com espaço localizado nas cercanias do Parque Ibirapuera. Em conversa com o Valor, Gormley falou da privatização do espaço público como um dos males sociais contemporâneos que o inspiram a seguir produzindo. Leia a seguir os principais trechos da conversa por telefone.

Valor: A última vez em que o senhor trabalhou no Brasil foi durante a ECO-92. É um outro país?

Antony Gormley: Nestes 20 anos o Brasil se transformou enormemente. A sensação de uma divisão total entre os miseráveis e os privilegiados era muito mais intensa. Lembro que no Rio foi assustador observar parte da população de fato removida do perímetro urbano para se garantir a segurança pública. A imagem dos helicópteros em parada militar sobre Copacabana, a polícia com as armas à mostra o tempo todo, foram impactantes. Recentemente voltei ao Rio por conta da mostra e andei pela primeira vez por algumas comunidades da zona sul da cidade, algo que seria impossível naquela época. Ou seja, de minha visão muito superficial, experimentei a mudança por que passa o Brasil em detalhes como a chegada da companhia de eletricidade a um dos morros no momento em que eu zanzava por lá.”
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Entrevista: Will Smith


Nunca mais o passado

Eduardo Graça, CartaCapital

“Quando um repórter perguntou em entrevista coletiva no Hotel Copacabana Palace, em fevereiro, para que momento histórico Will Smith gostaria de viajar em uma virtual máquina do tempo, a resposta foi tão curta quanto certeira: “Para mim e para minha gente, qualquer lugar no passado vai ficando pior”. Homens de Preto 3, que estreia no Brasil uma década após o segundo título da lucrativa série, é a primeira produção estrelada pelo artista em quatro anos. No filme, o Agente J (vivido por Smith) volta ao passado para salvar o planeta e, de lambuja, a vida do parceiro, o Agente K. O papel, consagrado por Tommy Lee Jones, agora é encarnado por Josh Brolin, em versão jovem, nos anos 60. “Este é o melhor momento para o meu povo. Se tivesse de voltar no tempo, queria parar anteontem, quando Barack (Obama) assumiu a Presidência. Seria perfeito”, diz Smith. “Os brancos, no entanto, é claro, podem ir para qualquer lugar no passado que estarão bem.”

Poucas horas depois, em entrevista para um grupo reduzido de repórteres, CartaCapital voltou ao tema lançado pelo próprio protagonista de Homens de Preto 3, o artista negro mais bem-sucedido da história de Hollywood, a única estrela a alcançar a marca de oito filmes consecutivos, vendendo mais de 100 milhões de dólares nas bilheterias dos cinemas americanos e com enorme expressão nos quatro cantos do planeta. “Sou um grande fã de Barack, como homem e presidente dos Estados Unidos. O que ele fez pelo mundo, até mesmo ignorando o aspecto político, é algo impressionante. A ideia de um negro presidente dos EUA soa absolutamente fantástica ainda hoje. Sabe o que me deixa chateado? Se há seis ou sete anos nós em Hollywood tivéssemos contado, em tom realista, a história de um negro vencendo as eleições para presidente dos EUA, ouviríamos a maioria das pessoas dizendo que seria o pior filme de todos os tempos. Algo como ‘só mesmo no cinema americano, lá vêm eles com as palhaçadas deles’, o candidato negro jamais, nunca venceria no fim da projeção”, ele acredita.”
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A raiz nordestina no Hip Hop


Com chapéu de palha, sandália de couro e falando “oxente” o rapper Rapadura resgata a raiz nordestina na cultura Hip Hop, e ganha destaque no cenário da música popular brasileira

José Neto, Brasil de Fato

Considerado pelo prêmio Hutuz 2009 o melhor artista do Norte/Nordeste do século XXI, o jovem cearense vem despertando a admiração de importantes figuras da música brasileira como Lenine, Marcelo D2, GOG, Mv Bill e Rappin Hood.

A inusitada “embolada” do rap com o repente, o coco, o maracatu, a capoeira, o forró, o baião e as cantigas de roda, fazem dele um dos precursores do século de um movimento em defesa da cultura popular.

Na integração do rap contemporâneo à música de raiz, suas letras exalam poesia em busca da identificação com o povo. “Muita gente acaba fazendo rap igual gringo e igual paulista, e se esquece da sua própria cultura. Se todo mundo parasse para analisar isso, se cada estado que tivesse a música rap com as características regionais, você ia ver como o movimento Hip Hop iria crescer muito mais, com uma identidade mais forte em todos os lugares,” afirma Rapadura.

O artista cearense ressalta ao Brasil de Fato a importância da identidade cultural, do orgulho de ser nordestino, e fala dos preconceitos dentro e fora de sua região.

Brasil de Fato – De onde surgiu o apelido “Rapadura”?

Rapadura – Bom, primeiro porque eu sou nordestino e como um bom nordestino, eu gosto de rapadura pra caramba [risos]. Sempre quando eu ia jogar bola com os meus amigos, voltava do jogo e entrava em casa para pegar um pote de rapadura e começava a comer. Os amigos passavam e fi cavam falando “rapadura, rapadura” aí ficou o apelido. Aproveitei e já inseri o nome do rap também: RAPadura.

Como você conheceu e se identificou com o movimento Hip Hop?

Eu conheci o movimento hip hop em Brasília, em 1997. Comecei a ouvir através de meu irmão, porém meu primeiro contato foi com a dança, o break, depois que eu fui cantar. Com 13 anos comecei a escrever. É como se fosse uma coisa natural, pois eu nunca tinha visto o rap na minha vida e comecei a fazê-lo com aquela sensação de que já estava em mim. Eu me identifiquei muito com a linguagem de manifesto e indignação, pois percebi que com o rap eu podia protestar contra os problemas na comunidade. Tudo que eu pensava, que eu sentia, transferia para a música, talvez essa tenha sido a causa principal da minha identificação com o movimento.

Em suas músicas há uma mistura da cultura nordestina (repente, coco, maracatu, embolada)com a cultura hip hop. Qual a importância dessa cultura para o Hip Hop, e vice-versa?

Se você pegar o coco, a embolada, o repente e o rap, todos são cantos falados, parecidos em sua expressão e linguagem. Se você ouve um repente de raiz, por exemplo, ele fala da vida do campo, das dificuldades, da alegria, da cultura, etc. O rap também relata as mesmas situações,mas, o mais importante disso tudo, é que a gente consegue fazer um verdadeiro rap nacional quando colocamos as nossas raízes dentro do rap, aí ele passa a ser nacional. As pessoas têm o costume de falar que é rap nacional pelo simples fato de cantar em português, mas não. O rap nacional tem que ser na sua linguagem, raiz e essência, com sua característica brasileira e regional.”
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"O cinema está vivo e muito bem"


Elaine Guerini, Valor

“O francês Thierry Frémaux, de 51 anos, passa o ano com os olhos grudados à tela da televisão, onde assiste a cerca de 1.800 DVDs de filmes, vindos de todos os cantos do mundo. Apenas 20 deles chegam à disputa pela prestigiada Palma de Ouro e mais 20 são selecionados para a mostra Un Certain Regard, o que aumenta a pressão sobre os ombros de Frémaux.

Há cinco anos como diretor-geral do Festival de Cannes, posto aprovado na França pelos ministros da Cultura e das Relações Exteriores, é ele quem seleciona os últimos trabalhos de grandes cineastas, descobre novos talentos e, de preferência, aponta os filmes que conquistarão a plateia mundo afora, ao longo do ano.

Foi o que aconteceu com "O Artista", que teve première mundial na Riviera Francesa, nove meses antes de sua recente consagração no Oscar deste ano. "Foi uma aventura maravilhosa iniciarmos a carreira do filme conosco, em maio, e vê-lo continuar dando o que falar até fevereiro do ano seguinte, na cerimônia do Oscar", afirma o diretor.

Neste ano em sua 65ª edição, o maior festival de cinema do mundo começa amanhã, com a exibição do filme "Moonrise Kingdom'', de Wes Anderson. Entre os candidatos à Palma de Ouro estão os novos trabalhos de Michael Haneke ("Amour"), Abbas Kiarostami ("Like Someone in Love"), Ken Loach ("The Angel's Share") e David Cronenberg ("Cosmopolis"). Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista que Frémaux concedeu ao Valor.

Valor: Como o sr. chegou à seleção do festival neste ano? Como anda o cinema mundial, principalmente depois da crise financeira, que limitou a oferta de filmes dos EUA e de alguns países europeus nas últimas edições?

Thierry Frémaux: É preciso vários anos para julgar o estado do cinema mundial. Nós não julgamos o vinho de Bordeaux só a partir de uma única colheita. O cinema se mantém misteriosamente poderoso e resistente à "civilização das imagens". Há quem apostasse que o cinema não conseguiria sobreviver ao vídeo e à internet. Mas o ato de fazer um filme continua único. Ainda que um filme precise de dinheiro, a crise não impediu que os artistas continuassem a se reinventar. Obviamente, eu falo como cinéfilo. Por isso digo que o cinema está vivo e muito bem.”
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